30 de maio de 2009

Desconfianças

Vivemos numa sociedade cada vez mais desconfiada, mais fechada em si mesma e, consequentemente, com receio de olhar para o outro. Ganho mais consciência disso, quando estou no meu carro com uma amiga e, junto a uma pequena rotunda, uma senhora com dificuldades motoras me faz sinal para parar e me pede que a leve até uma determinada morada. Vacilei. Vacilei, porque tive medo. Medo porque pensei na imensidão de esquemas e de crimes violentos que ouvimos hoje em dia em todos os meios de comunicação social. Disse-lhe (e não era mentira) que estava cheia de pressa e não conhecia a rua. Perante o seu olhar desesperado e a promessa de que a tal a rua ficava perto, acabei por aceder...deixei-a entrar para o banco de trás e fui o tempo todo a pensar e agora o que é que nos vai acontecer. Já a imaginar uma rua escura vazia, com uns quantos gorilas à nossa espera para nos roubarem o carro e sei lá mais o quê. Pensei eu e a A. ao meu lado. Lá fomos por ruas menos frequentadas e menos conhecidas até ao destino da senhora. Deixámo-la e olhámos uma para a outra para nos apercebermos que estávamos as duas com receio de que tudo não passasse de um truque. Lá fomos à nossa vidinha com a consciência pesada e envergonhada por tão prontamente acharmos que tudo e todos têm uma má intenção. Parámos no banco, para levantarmos dinheiro e quando eu saio do carro e vou buscar a minha mala ao banco de trás parei repentinamente. Não via a minha mala, que sabia que tinha posto no banco de trás, minutos antes de apanhar a A. A minha mala, onde estavam o meu telemóvel, a minha carteira, os meus cartões, óculos escuros, as chaves de casa e tantas outras coisas mais ou menos necessárias. O meu coração parou ali e gritei "A. a minha mala. A senhora (sim, chamei-lhe senhora) levou-me a mala" - entrei em pânico. Tive um pequeno ataque de stress: o meu coração disparou e as minhas mãos começaram a tremer. A minha franja, ainda nervosa, espetou na hora, novamente. Na minha mente, nos espaço de 5 segundos formaram-se imagens da dita senhora a largar as muletas e a correr disparada por uma ruazinha qualquer, qual Obikwelu, para me despistar a mim e ao batalhão de polícia que entretanto iria chamar. a minha cara deve ter variado entre todas as cores do arco-iris e mais algumas. Perdi uns dois anos de vida naquele momento. A A. olhou para o banco de trás, abriu a porta e disse-me calmamente: está aqui. Debaixo dos 23 casacos, sacos e até de um caixote pequeno. Lá estava ela. E mais uma vez fiquei envergonhada comigo mesma e não foi por ter um carro tão desarrumado, mas porque julguei na hora que tinha acabado de ser assaltada. Mas ainda fui a correr ver se estava tudo lá dentro (é que já fui assaltada umas quantas vezes, uma pessoa ganha trauma). E dou comigo a pensar quantos de nós não negamos a ajuda ao próximo com medo das suas intenções? De qualquer forma, apanhei um grande susto com o qual aprendi que, da próxima vez que der boleia a alguém que me pareça mesmo necessitado (sim, porque não daria boleia a qualquer um, óbvio) levo a mala ao colo - é que teria sido tão fácil, mas tão fácil levá-la...

30 comentários:

  1. Compreendo o teu receio... nesta sociedade em que vivemos,acabam por comer todos por tabela.
    É mais fácil desconfiar à partida, do que confiar à partida...

    Acho que isso é também um pouco, o nosso instinto de sobrevivência a falar.

    *

    ResponderEliminar
  2. O problema agora, é o aproveitamento das fragilidades e sentimentos das pessoas em prol de um "crime".
    Sim, quem tem cu tem medo, e infelizmente vivemos num mundo de desconfiança. Já tive episodios semelhantes e também nunca me aconteceu nada de mal. Até um dia? Não sei. Mas vou continuar a ajudar quem achar que realmente necessita.

    Bjooooooooooos

    ResponderEliminar
  3. Perfeitamente compreensível a tua atitude. Infelizmente já não se pode ajudar alguém pois somos bombardeados de notícias de boa gente que quis ajudar e deu-se muito mal..

    É pena mas é o mundo em que vivemos.

    ResponderEliminar
  4. Terminamos sempre por pensar nas armadilhas e na má fé das pessoas. Não podemos generalizar mas é muito complicado nos dias de hoje.
    Mas fizeste bem.
    Boa ação.
    Fazer o bem sem olhar a quem;)
    Bom fim de semana.

    ResponderEliminar
  5. Eu ajudo toda a gente na rua, mas nunca meteria ninguém dentro do meu carro. Lamento! É uma questão de segurança... não sei que a pessoa é, não sei das suas intenções, não se é quem diz ser, etc...

    ResponderEliminar
  6. Pois, esse pensamento acaba por ser legitimo. mas teres ajudado a senhora foi uma prova de grande coração :)

    bessos*

    ResponderEliminar
  7. Não fiques envergonhada porque o teu medo nos dias de hoje é mais do que o normal! Além do mais provavelmente poucas seriam as pessoas que ajudariam essa senhora e tu, mesmo com o receio, ajudas-te.
    Bom fim de semana =)

    ResponderEliminar
  8. Com todas as histórias qu se ouvem, é nartural que tenhas sentido tudo o que sentiste. Quantos de nós teríamos pensado de forma diferente. ainda assim dou-te os parabéns porque venceste os receios e ajudaste a senhora. Não sei so teria feito.

    ResponderEliminar
  9. Entendo-te bem. E como diz o ditado: gato escaldado de água fria tem medo!
    Desconfiar foi uma reacção normal.
    Beijinho*

    ResponderEliminar
  10. Bê, isso tudo que aconteceu, mais parece uma excessão dado aos acontecimentos normais. Quantas "velhinhas" são pegas nos aeroportos transportando drogas e outras barbaridades. Se Hamlet vivesse agora, diria: "Crer ou não crer, eis a questão". Temos que nos cuidar, embora não tenhamos bola de cristal para adivinhar quem está mesmo precisando. Isso mexe com os "nervos" da gente, né Bê?
    Um ótimo fim-de-semana para você. Continue sempre feliz. Beijocas. Manoel Eduardo - Brasil.

    PS - Curiosidade: "Sabe por que escrevo sempre Manoel Eduardo - Brasil?
    Porque tenho receio de escrever alguma palavra inadequada. Algo que tenha outro sentido por aí. Nossa língua é tão rica que às vezes ofendemos sem querer. Se ocorrer isso, por favor, me avise. Vou ruborizar-me um pouco, mas não volto a escrevê-la. Grato. Mais beijinhos.

    ResponderEliminar
  11. Faz parte querida..aprendemos a desconfiar. Somos todas assim, não tens de te sentir envergonhada.

    ResponderEliminar
  12. Ao ler-te lembrei-me de uma história minha. Eu sou super-cautelosa e preventiva.
    Um dia, a caminho do trabalho, pelas 8h da manhã junto a Chelas, vejo um carro parado com uma senhora e uma criança. A senhora tentava pôr o triângulo. Pensei "Este sítio é perigoso, não vou deixar a senhora aqui sózinha".Parei, tentei ajudar, e ia esperar pela assistência em viagem.
    Entretanto pára um carro e saem 3 homens lá de dentro. Pela 1ª vez tive um ligeiro receio. Mostraram os crachás e era da Policia Judiciária(Ufa!!!!!). A senhora ficou bem entregue e eu vim-me embora.
    Quando contei aos meus colegas pela primeira vez percebi o potencial perigo quando me disseram "Não podes andara a parar assim no meio da estrada para ajudar as pessoas. Podem ser esquemas de assalto".
    Fiquei banzada com a minha inocência. Eu a super-desconfiada e cautelosa.

    Depois disso voltei a ajudar pessoas na estrada de forma mais cautelosa, mas sem deixar de o fazer e em especial de seguir a minha intuição.

    ResponderEliminar
  13. Um episódio engraçado. É verdade, já não se consegue confiar em ninguém.

    Aqui em Lisboa não teria dado boleia certamente.

    beijinhos

    ResponderEliminar
  14. o facto de desconfiarmos é resultado daquilo em que este país se está a tornar!
    não tens que te sentir envergonhada.
    bjo

    ResponderEliminar
  15. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  16. Teria pensado exactamente o mesmo que tu mas confesso que nao teria dado boleia a senhora, antes pagar-lhe um taxi, porque realmente nos dias de hoje ouve-se tanta coisa e na minha opiniao ja nao se trata de sermos egoistas ou nao, mas de sobrevivencia.
    Ha outras formas de ajudar sem nos colocarmos em risco.
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  17. Olá!
    Eu não dou boleia...a quem não conheço:=(
    Tenho pena...mas é ponto acente...

    beijocas

    ResponderEliminar
  18. Eu teria pensado da mesma forma afinal isto está muito mau mesmo.

    ResponderEliminar
  19. Bê?!

    Saudações Portistas ao P.!


    =)

    ResponderEliminar
  20. Não te preocupes que isso é normal...E infelizmente isto está cheio de esquemas e desconfianças. Um amigo meu já foi assaltado (levaram-lhe o carro, a carteira e o telemóvel) pq parou pa ajudar uma senhora a mudar o pneu...

    ResponderEliminar
  21. Eu nem pararia. Paga sempre o justo pelo pecador mas antes isso que vir-me a arrepender depois.
    BJS

    ResponderEliminar
  22. 6feira estava parada num semáforo e vem um velhinho na minha direcção, com o olhar confirmei se tinha as portas fechadas, ele coloca a mão no puxador da porta e... tira um papel de publicidade que lá tinham colocado. mostrou-me o papel a rir-se, com um sorriso super simpático.
    senti-me mal...
    mas realmente nos dias de hoje há muita insegurança!

    ResponderEliminar
  23. O mundo não está para brincadeiras.
    Hoje em dia esse teu receio é mais que normal e justificado.

    Acaba por ser sempre aquele argumento, não podes ter medo de sair à rua, ou de atravessar a estrada a pensar que corres sempre algum perigo, mas ao mesmo tempo, ninguém te pode culpar por teres receios ou decidires ser precavida.

    Nem tanto ao mar nem tanto à terra, e tanto faz bem aquele que arrisca um pouco, como aquele que se torna precavido. O ideal é conseguir equilibrar as duas atitudes.

    Esperemos que as coisas comecem a melhorar, ou não dou muito mais tempo para andarem as pessoas a arrancarem olhos umas às outras.

    ResponderEliminar
  24. É mais do que compreensível. Eu não dou nem peço boleias. A ninguém nunca!
    Não estamos num tempo seguro, de todo! Eu não paro quando vejo acidentes, ou carros encostados na berma...
    Tenho pena. A sério. Mas paciência!

    ResponderEliminar
  25. Não tens de te sentir envergonhada, querida. É normal. Não te aconteceu pq a senhora não era mesmo mal intencionada. Mas quantas vezes já terá acontecido uma coisa semelhante a pessoas que se deram mal por terem sido prestaveis? Quando não conhecemos as pessoas, nunca sabemos se podemos confiar ou não. Porque nem todas as pessoas têm as mesmas intenções que nós.

    Beijo :) *

    ResponderEliminar
  26. Hilariante o teu episódio. Eu no teu lugar teria tido o mesmo raciocínio. Infelizmente vivemos num clima de insegurança tremendo, o que nos aguça a desconfiança pelo alheio. É normal!

    ResponderEliminar
  27. Xiça
    Compreendo.te perfeitamente, eu não sei o que faria.... Mas com certeza se não visse a minha mala pensaria o mesmo....
    Jinhus

    ResponderEliminar
  28. Faxavor de não desaparecer mais do blog!

    E faxavor de enviar as minhas saudações portistas ao P.!

    E faxavor de receber o meu beijinho especial enviado daqui para aí ;)

    ResponderEliminar
  29. *B* querida, voltei! E já dei as tuas saudações ao portista cá do cantinho ;);)

    ResponderEliminar

Aceitam-se elogios, críticas, gargalhadas, lágrimas, sorrisos e afins