6 de agosto de 2009

Devaneios

Adoro ver casais enamorados, gestos de carinho e amor, manifestações públicas de paixão (comedidas, claro), adoro sorrisos sinceros e olhares intensos. Adoro notar a cumplicidade entre duas pessoas. E quanto mais idade as pessoas tiverem, mais gosto de ver, porque me parece mais genuíno. Não há nada mais enternecedor do que duas pessoas de idade, de mãos dadas e sorrisos estampados - pessoas que muitas vezes atravessaram ventos e tempestades, mas isso não quebrou o sentimento que partilham. Muitos queixam-se e lamuriam-se que enjoa, dizendo ser uma falta de respeito, uma pirosice ou simplesmente que não se aguenta. Eu não, não estou a criticar os que não gostam (cada um tem as suas razões), estou apenas a assumir que eu gosto. E não gosto apenas porque me sinto bem e feliz neste momento. Nada disso. Também já sofri, já fui solteira, já me senti muito sozinha, já fui enganada e traída. Já me senti em baixo, incapaz de amar, incapaz de me permitir ser amada*. E mesmo nessa altura, ver pessoas de bem com a vida, apaixonadas, felizes, sorridentes, já me provocava um sorriso - que, se na altura era de esperança, hoje é de certeza de que todos temos capacidade para amar e ser amados e que se todos o pudéssemos sentir, o mundo era, com toda a certeza, um lugar bem melhor - desculpem-me o lugar comum, mas não encontro outra forma de o escrever.
A mim custa-me e assustam-me sim, as manifestações de incerteza, as discussões, a apatia com que muitas pessoas caminham lado a lado, jantam juntas num restaurante, ou passam um dia inteiro na praia.
Porque eu espero um dia, ser já velhinha, cheia de rugas e cabelo branco e passear de mãos dadas, com cumplicidade no olhar e de sorriso sincero...e sentir-me tão apaixonada como hoje.
* Durante a fase mais complexa da minha vida, aquela em que menos acreditei no amor e em que mais queria distância de relações, foi exactamente quando me apaixonei perdidamente e comecei a sentir algo que nunca senti antes por ninguém. Porque o amor não se procura, encontra-se ou encontra-nos, mesmo quando pensamos estar fechados e perdidos...

28 comentários:

  1. Como te compreendo. E um dos exemplos mais concretos disso que acabaste de descrever são os meus avós: casados há 55 anos, são a vida um do outro, nota-se o brilho nos olhos dos dois, e ainda andam de mãozinha dada. Isto tudo com rabujices e embirrações a meio, como é óbvio, mas tb faz parte!

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  2. Dexter - também tive esse exemplo nos meus avós :)
    E claro que as rabujices e embirrações fazem parte, especialmente quando duas pessoas se conhecem muito bem. És um privilegiado por poderes viver isso!

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  3. Querida B, partilho daquilo que dizes.
    Adoro essas manifestações não porque me sinto apaixonada tambem, mas porque é saudável doce bonito só isso.
    Acho maravilhoso amar e ser amado.
    Mandei-te um mail não sei se recebeste beijo grande

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  4. Querida Petra - nem mais! Não tive oportunidade de ir ao e-mail, mas vou assim que possa!

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  5. Talvez por estar um pouco mais sensível, sei lá, acabei por sentir um nó no estômago, porque não me consigo ver a ter alguém que me acompanhe nesta estrada que é a vida! Felizes os que são brindados pelo amor ;)

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  6. Only words - é como digo, o amor não se procura, encontra-se. Claro que há fases em que nos sentimos menos crentes, mas acreditas que podes e vais ser feliz!

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  7. Ei fico sempre comovida (e roída de inveja) ao ver um casal que nitidamente se ama... especialmente velhotes.

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  8. que bonito Bê... estou de acordo contigo em tudo! quem me dera tb a mim chegar a velha um dia e ainda viver daqueles amores "à filme"...

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  9. - Passou muito depressa, não passou? Até parece que foi ontem…

    Ele contemplou-a com admiração. O tempo passara depressa? Certamente que sim.
    O tempo galopara… transformando os dias em semanas, os meses em anos. E assim, de uma forma leve, vinte e cinco anos haviam decorrido desde e primeira ( e também última ) vez que haviam pernoitado naquele mesmo quarto de hotel, numa ruela secundária de Vila Nova de Milfontes.
    Corria então Agosto de 1984, um verão quente, a pacata vila do litoral alentejano invadida por turistas de pé descalço, com muita música no ar, cerveja sobre as mesas e grupos de escuteiros de mochilas às costas, rumo aos acampamentos de verão.
    Vinte e cinco anos…
    Ela pareceu ler-lhe os pensamentos.
    - … tu também não estás mais novo… - lá foi dizendo baixinho.
    Era verdade.
    Nenhum dos dois estava mais novo. Ela engordara uns quilinhos, arranjara algumas rugas de estimação, umas dores nas pernas e meia dúzia de cabelos brancos, que lhe emprestavam um ar sereno, tranquilo mesmo. Ele deixara crescer a barba, passara a usar o cabelo sempre muito curto e desde que deixara de fumar, engordara horrores.
    As três filhas, quais gotas de água, eram a imagem da mãe. Bem… mais a imagem, que o temperamento puxava mais ao pai, conciliador e rezingão, criativo… e preguiçoso, também.
    Ele desligou o telemóvel e pousou-o sobre a mesinha de cabeceira.
    - Hoje não estamos para ninguém… - e sorria, olhando para ela pelo canto do olho. - queres que chame o serviço de quartos ?
    Ela soltou um suspiro de admiração.
    - Temos direito a serviço de quartos? Mas que luxo… da primeira vez apontaram-nos as escadas e disseram-nos… olhem, é por ali…
    - Ora… mas isso foi da primeira vez… ainda éramos uns gaiatos, hoje já temos assim um aspecto… mais adulto, diria eu.
    Ela concordou.
    - Está bem… chama lá o serviço de quartos.
    - Apetece-te alguma coisa de especial? Alguma bebida, ou aperitivo, ou…
    Os olhos dela ganharam um brilhozinho especial.
    - Olha… seria giro… repetirmos a primeira vez… o que bebemos nós naquela noite, lembras-te ? Era um licor, ou qualquer coisa doce, não era?
    - Era vinho do Porto… bebemos dois cálices de vinho do Porto…
    - Porto… foi isso mesmo, já me recordo… pois olha, é isso que me apetece agora… um cálice de vinho do Porto…
    Ele sorriu, bem disposto.
    - Vamos já tratar disso, minha senhora…

    - Os senhores desejam mais alguma coisa?
    Ele fez-lhe sinal que não, que estava tudo bem.
    - Então tenham uma muito boa noite… e muitos parabéns...
    E saiu, com um sorriso matreiro.

    - Ouve lá, João… não te pareceu que a funcionária do hotel estava muito… nem sei como dizer… muito esquisita?
    Ele respondeu-lhe do outro extremo do quarto.
    - Ora… talvez estivesse só bem disposta. Também tem direito, não?
    - Sim, sim… mas tu nem reparaste? Até nos desejou parabéns e tudo… como é que ela saberia…
    Olhou para o tabuleiro com a garrafa de vinho do Porto, os cálices e o ramo de flores.
    - João…
    Ele aproximou-se, já sem sapatos.
    - Sim, Maria… o que foi?
    - João… ela deixou-nos uma garrafa já aberta… olha para isto… já está a meio…
    Ele sentou-se ao pé dela.
    - Oh, Maria… e então? Talvez fosse a última… isso não é importante, pois não?
    Ela enrugou a testa, naquela expressão que lhe era tão característica, quando sentia que estava a ser enganada… e não sabia como.

    (continua...)

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  10. (...continuação)

    Voltou a olhar com mais atenção para a bandeja, os cálices, o arranjo de flores, a garrafa… a garrafa era estranha, familiar… e o que era aquilo ali no meio… parecia que tinha alguma coisa escrita…
    Pegou na garrafa e estremeceu.
    - João… olha para isto…
    E apontava com o dedo para uns rabiscos no rótulo… um coração desenhado a tinta, com as letras M e J, uma de cada lado.

    E então… lembrou-se.

    O marido ficou a olhar para ela, um sorriso matreiro, deliciado com a situação.
    Fizera bem em guardar aquela garrafa, no sótão da casa, durante todo aquele tempo. Vinte e cinco anos atrás… fora aquela a garrafa de vinho do Porto que lhes haviam levado ao quarto, aquele mesmo quarto, na noite de núpcias. Haviam bebido dois cálices cada um, trocaram juras de amor e com a esferográfica do hotel, ela desenhara um coração com as iniciais deles no rótulo da garrafa…

    Ela olhou para ele, comovida.
    - Tu já tinhas isto tudo planeado, não tinhas?
    Ele acenou afirmativamente.

    - Mas, minha querida… só podemos beber mais dois cálices, está bem… é que depois… vou ter que esconder novamente a garrafa…. e só a vais ver de novo daqui a … sei lá… talvez mais uns vinte e cinco anos, o que achas?

    Ela atirou-se-lhe ao pescoço, um abraço apaixonado.

    - João Maria Mendes da Conceição…. vem aqui imediatamente aos meus braços. Já.

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  11. Entremares - adorei o comentário, digno de um post. Muito bonito - algo que todos gostaríamos de viver...

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  12. As pessoas que se queixam do amor manifestado dos outros são as mesmas que acham que o Euromilhões não devia sair a uma só pessoa. Pois, eu cá fico sempre contente com a alegria e bênçãos dos outros. Para solteira, não amada por um parceiro-que-me-aqueça-os-dias-e- as-noites* e por vezes macambúzia já basto eu. E quando me sintonizo com o Amor e Alegria dos outros estou a atrair essa mesma vibração para mim. E não rezinguice.

    Pensando bem gosto de ver todo o tipo de Amor e Alegria. Os passarinhos, os cãezinhos... até vejo Amor numa flor ou numa árvore. Talvez porque esteja apaixonada pela Vida.


    Bem eu sei que queria chegar a algum lado com este raciocínio, mas agora passou-me. Deve ser da falta de sono... vou calar-me por agora. Beijinhos


    *Sim, porque sou amada pelos meus Amigos, Familia e Gatas.

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  13. Deixaste-me com um no na garganta ... acho que ja nao vou ser feliz assim.
    Estou na fase das letrinhas azuis mas nao encontrei ninguem :)

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  14. Não sei o que dizer, texto bastante bem elaborado... conquistaste-me...

    Gosto de ver casalinhos apaixonados de mão dada a aproveitar a vida, é muito bom...

    Blog muito bom, prometo voltar...

    Beijinho

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  15. Partilho essa opinião contigo... Derreto-me quando vejo essa cumplicidade... continuo caminho com um sorrisinho nos lábios!

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  16. Adoro demonstrações de amor!
    Não existe melhor sentimento na vida :)

    beijinhoss

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  17. Bê...gostei. Eu tb gosto mto de ver casais apaixonados, principalmente os mais velhinhos, dão-me esperança, renovam a fé.

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  18. Bê, que coisa mais linda essa sua exposição. Você pensa e sente assim porque em todos os seus relacionamentos seus objetivos são maduros. Não são aventuras. O amigo(a) é de fato amigo(a). O marido é de fato marido e assim por diante. Se temos maturidade no amar gostamos também da maturidade ao sermos amados. As relações ficam mais perfeitas porque existe uma maior entrega dos que se relacionam.
    Quando vejo um casal idoso "namorando" percebo quanta estrutura foi colocada na construção daquele amor.
    Bê , sua postagem é linda. Carinhoso beijo prá vocês. Manoel Eduardo - Brasil.

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  19. Adoooorei este post!! Sinto e penso exactamente o mesmo, é como se as tuas palavras fossem as minhas :)

    **Beijinhos**

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  20. o que me mais me imnpressiona, é mesmo aqueles casais a discutir em publico. que nao só nao conseguem nao discutir, como o fazem em publico..

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  21. Também eu tive uma altura em que simplesmente deixei de acreditar...mas quando me apaixonei novamente tudo isso voltou! Sim, porque gosto de acreditar que existem amores verdadeiros, e sim porque gosto de acreditar que um amor pode (e deve) ser para toda a vida! Não consigo deixar de acreditar no amor, porque amo e vivo essa cumplicidade e esse carinho no casal que descreves.
    E como é bom...
    Mas agora, acho que posso dizer que para viver uma amor assim, é preciso duvidar e questionar, só assim se chega a dar realmente valor ao que temos.

    Beijinho

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  22. Elisabete, tens tanta razão no que dizes. É preicso passar por essas etapas para aprendermos a dar valor e a ver as coisas com outros olhos :) ainda bem que tens essa vivência!

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  23. O amor...tanto que se poderia dizer sobre ele, mas palavras para quê quando os gestos valem tanto?

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  24. Não podia concordar mais. Adoro ver manifestações dessas. E por muitas coisas más que já tenhamos passado...o importante é acreditar. E não nos tornarmos umas pessoas amargas e com medo de amar :)

    beijinho *

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  25. Mais uma vez concordo contigo (e sublinho o comedidas porque quanto mais espectáculo dão é quando mais depressa se separam). Mas é essa cumplicidade que perdura. É um crescer juntos.
    Beijocas

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