4 de agosto de 2009

Histórias de vida

O JR era um senhor dos seus cinquenta e poucos anos quando o conheci, mas, envelhecido pelos desgostos da vida, aparentava mais. Foi num mês de Agosto, já distante, que o entrevistei e fiquei a conhecer a sua história. Toda a vida trabalhara na mesma empresa, depois de ter deixado a escola sem terminar o 9.º ano, como tantas outras pessoas, por necessidades familiares e financeiras. Eram outros tempos e a escola era muitas vezes deixada para trás, perante a necessidade de se apoiar os pais no sustento das famílias. Nessa empresa, o JR começou como estafeta: fazia recados, levava cafés e fazia aquelas tarefas que ninguém quer fazer, às quais ninguém dá valor, mas das quais muitos necessitam para um dia de trabalho mais eficiente. Ao longo dos anos e face a tanta dedicação e competência, o JR foi subindo a pulso e evoluindo na empresa, até chegar a uma função na área administrativo-financeira, aquela que lhe era permitida com a sua escolaridade, embora as responsabilidades efectivas ultrapassassem e em muito, aquilo que estava estipulado no contrato e, sobretudo, no salário. O JR era casado, apaixonado pela mulher e tinha dois filhos. Tinha ainda uma boa casa. Podia considerar-se feliz e felizardo.
Um dia a empresa entra em falência e começa a despedir pessoas. O JR foi uma das muitas pessoas que, de um dia para o outro, ficou sem nada. Apenas um pequeno e mísero subsídio, com a duração de três anos e a urgência em arranjar emprego. Isto abalou-o, deitou-o abaixo, fe-lo sentir-se fraco e desprotegido, incapaz de manter o nível (ainda que modesto) de vida da sua família. Entrou em depressão e, em consequência, a mulher deixou-o e os filhos deixaram de querer saber dele. A depressão piorou e as hipóteses de arranjar um emprego também. Lembro-me do seu olhar triste, quando me contou tudo isto, numa voz toldada pelo sofrimento. Soluçava e gaguejava, em consequência da depressão. No fim, chorou e o meu coração chorou silenciosamente com ele. Lembro-de de, depois de ele sair da sala, eu ter precisado de uns minutos para me recompor. Na minha profissão há que saber manter as distâncias e diria mesmo, a frieza perante tantos e tantos casos como o do JR ou outros, ainda piores. Mas eu não consigo, não quando fico sozinha. Vou-me abaixo e carrego as suas tristezas nas minhas costas.
O JR foi tornou-se um dos meus muitos "alunos", depois dessa mesma entrevista. E depois de um período longo e exigente, aprendeu a usar um computador: a escrever no word, a enviar e-mails, a fazer tabelas, a consultar a internet. Reaprendeu muitos conceitos da matemática, algo adormecidos, teve formação em Língua portuguesa, aprendeu a fazer um curriculum vitae e uma carta de apresentação, leu livros e jornais, fez apresentações orais para os colegas e relembrou tantos conceitos e aprendizagens obtidos através da sua vida escolar, mas também profissional. Não faltou a uma única sessão, embora o parco rendimento mal lhe chegasse para os bilhetes de autocarro. Um dia, bastante tempo mais tarde, o JR conseguiu concluir o 9.º ano e, pela primeira vez, vi um brilho no seu olhar e a sua voz fraca mudou. Pouco tempo depois conseguiu um trabalho - na construção civil. Um trabalho duro e diferente de tudo o que tinha feito até então, mas um trabalho honesto e que lhe permitiria dar um novo rumo na sua vida. Conheceu uma senhora, que aceitou as suas dores e compreendeu o seu olhar triste, com quem começou a viver. Aos poucos, gradualmente, a sua vida foi-se organizando novamente. E eu olho para trás, para o JR, e para tantos outros que conheci: o OS, o RR, o CF, o JA, a AS, a RD, e tantos outros rostos desconhecidos, que viveram tanto, sofreram tanto, mas que souberam levantar-se das maiores quedas que possamos imaginar e seguir em frente...
A todos eles, o meu obrigada pela partilha e por me ensinarem aquilo que não se aprende na escola e nos livros. É por eles e por todos aqueles com quem me vou cruzando, que escolhi como área de mestrado, a educação e formação de adultos, área pela qual me apaixonei.
Hoje o meu trabalho é diferente, embora a população seja semelhante e todos os dias eu tenho pequenas/grandes lições de vida. Acima de tudo, aprendo diariamente, a dar valor ao que tenho e a viver cada dia com intensidade, sem tomar nada como certo.

22 comentários:

  1. É mesmo a parte gratificante desta profissão.

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  2. opa chorar a ler um post logo de manhã não vale.
    está tão bonito :)
    tb sofro com essas historias e pessoas.



    ps:

    http://blitz.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=bz.stories/49649

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  3. Bê, essas são as pessoas que nos devem servir de exemplo! Eu não seria capaz de fazer aquilo que fazes, porque me emociono e envolvo demasiado, tomo as dores deles como se fossem minhas, sou uma empática por assim dizer... e quando falas de formação e educação de adultos, talvez eles tenham mais para nos ensinar a nós, ainda um tanto jovens.
    Lembro-me tantas vezes do meu avô, que era analfabeto mas era mais sábio e inteligente que muitos que conheço hoje. Do meu sogro digo o mesmo, que começou a trabalhar à jorna com apenas 7 ou 8 anos...
    Do meu pai, que concluiu a 4.ª classe com 34 anos, graças ao apoio incondicional da minha mãe!
    Deveriam ser esses os nossos ídolos, a quem devíamos admirar!
    Um post muito bonito e importante, Bê!!

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  4. Que lindo texto, Bê!

    Como sabes dou formação em cursos EFA e os meus formandos também costumam soltar um ou outro desabafo... Há quase sempre uma história um pouco triste para contar... Uma fase mais desesperante...

    É imensamente gratificante ajudar estas pessoas! Motivá-las... Passar-lhes conhecimento onde vai sempre entranhado também um pouco de nós. Aprendi essa frieza que tu falas e aprendi que não podemos carregar as suas mágoas e problemas. Não consigo. Já desisti de tentar. Acho que já nem quero. Guardo para mim, mas também carrego...

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  5. Bernardo - histórias de vida reais ;)

    Sandy - é mesmo. Saner que podemos marcar a diferença desta forma...

    Jaqueline - :)
    andas muito emocional minha querida J.

    Naná - acredita que cada dia é uma luta porque sou muito emotiva. Aprendi a controlar-me, mas por vezes desabo...Casos como os que descreves são flagrantes de pessoas que sabem muito mais do que aquilo que as sociedade lhes reconhece...

    *B* - conheces bem a minha realidade, como eu a tua :) Há dias em que consigo distanciar-me, mas, regra geral, as histórias dos outros marcam-me...nã é fácil, mas é muito gratificante poder marcar a vida destas pessoas. O que tu fazes é muito bonito!

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  6. que todas as histórias tivessem finais felizes...

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  7. Bê querida, adoro o teu fundo, mas encontrei dois backgrounds que acho que ias gostar [é o que faz estar de férias ;)]!

    Espreita:

    * http://www.backgroundfairy.com/2009/06/free-blog-background-tan-and-cream.html

    * http://www.backgroundfairy.com/2009/01/free-blog-background-taupe-grunge-roses.html

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  8. Bem, confesso que fiquei comovido com a história :)

    É de facto, tocante, mas o mais reconfortante é saber que ainda existem pessoas como tu, cuja profissão consiste, entre outras coisas, em ajudar psicologicamente estas pessoas a quem a vida não sorriu.

    Admiro-te, a sério!

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  9. *B*zinha do meu coração, parece que adivinhaste que andava com vontade de mudar. Que tal? Amei, obrigada!!

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  10. Confesso que era o meu preferido! O outro é lindo, mas este é mais simples!



    Sei-te sincera, sei que não mudavas só porque sugeri, mas AMEI!!!


    =)

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  11. Hannah - é bem verdade. Muitas das histórias com as quais me cruzo, não terminam assim...mas saber que uma teve um final feliz já é uma grande vitória.

    Dexter- fiquei sem jeito...sem palavras com o teu comentário...o que é certo é que adoro o que faço e espero poder faze-lo por muitos e bons anos...

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  12. Um dia quando enjoares, colocas o outro!

    É tão vintage ;)

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  13. Bê, tens de remover o anterior!!! Ele aparece na mesmo! lol

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  14. Não, andava mesmo a fazer experiências, com vontade de mudar! experimentei os dois, mas gostei mais deste. E sim, quando me farta volto ao outro - fica sempre bem!

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  15. Opsssss - sou mesmo naba! Já está!

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  16. de facto tens que saber gerir muito bem os teus sentimentos e emoções para não te deixares ir abaixo...

    Adorei o Post!


    :-)

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  17. Infelizmente também conheço e lido com muitos casos desses. E às vezes faz-se das tripas coração para não desabar com eles.

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  18. Sofizita - o que dizes é tão verdade. Não abordei esse lado, mas acontece-me com frequência - por vezes apetece partilhar um pouco de mim, para tentar ajudar...mas não o podemos fazer...

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  19. Que post bonito. Deves sentir-te extremamente gratificada pelo JR e por todos os JR's com quem já te cruzaste e que conseguiste ajudar.

    Beijinho *

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  20. Cat - é verdade que sim. ainda ontem comprava a minha profissão com a tua futura - e pensava que, de uma forma mais singela e indirecta, a minha também salva algumas vidas...:)

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