7 de dezembro de 2009

Pessoas bonitas #5

A beleza desta rubrica (falta de humildade minha!) é que me têm chegado e-mails maravilhosos, uns de pessoas bem conhecidas de todos nós, outras nem tanto, mas que nem por isso são menos bonitas.
Hoje deixo-vos o e-mail da M., que nos conta a maravilhosa história do seu tio-avô, que não teve a felicidade de conhecer, mas sobre o qual existem relatos fabulosos. Obrigada M., pela partilha - não mexi numa única vírgula no que escreveste ;)

Conheces a personagem do Dr. João Semana d’ “As pupilas do senhor Reitor”? Vou contar-te a história do meu tio-avô, que, infelizmente, não tive o prazer de conhecer e que retrata na perfeição o que Júlio Dinis pretendeu escrever.

Mário Armando Braga Temido nasceu na freguesia de S. Bartolomeu, em Coimbra, a 3 de Dezembro de 1914 e faleceu a 3 de Outubro de 1980, também em Coimbra. Licenciou-se em Medicina, na Universidade de Coimbra, em 1939, e doutorou-se em Medicina Tropical, na Universidade de Lisboa, na vertente da Malariologia. Ao longo da vida publicou os seguintes livros: “Problemas de Sezonismo” (a sua tese de doutoramento), “Os factores adjuvantes da Endemia e Sezomáticas nas Beiras”, “Da influência do Sezonismo na colonização da Guiné”, “As Tripanossomias na Guiné, Angola e Moçambique”.
A 16 de Junho de 2009 foi inaugurada a nova Biblioteca Escolar da Escola Básica Integrada de Pereira do Campo, biblioteca esta que tem como patrono Mário Temido. Quando fala daquele que muitas vezes foi comparado ao Dr. João Semana, Manuel Leitão da Cruz, professor da supracitada escola, recorda “… um médico já falecido, que exerceu o seu trabalho em Pereira [concelho de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra], muito bondoso e compreensivo para com as pessoas de Pereira, a quem realizava consultas sem levar dinheiro e oferecendo-lhes os medicamentos”. Conta-se que quando as pessoas precisavam dos seus serviços colocavam uma cadeira à porta com um pano vermelho para que, quando passasse, soubesse que havia um doente para visitar. Acontecia, também, ser, muitas vezes, chamado durante a noite para prestar apoio aos enfermos, rumando imediatamente a Pereira com a companhia da sua esposa, D. Maria de Lurdes. Embora não solicitasse qualquer forma de pagamento, as pessoas com mais posses davam-lhe uma avença anual, geralmente, um alqueire de milho.
Para além da medicina, Mário Temido também se dedicou ao teatro, ensaiando muitas peças, algumas das quais apresentadas na vila. Homem da cultura, permanece também ligado a “O Despertar”, jornal em que colaborou durante décadas, onde assinava com o pseudónimo de Jorge Montes Claros. Enquanto era estudante, esteve ligado às mais diversas entidades e colectividades, tendo sido: director do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra (1935-36), presidente da Assembleia Geral da Associação Académica de Coimbra (1935-36), presidente da Assembleia Geral do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra (1936-37), colaborador do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) e da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, presidente do TEUC (1938), presidente da Assembleia Geral do Ateneu de Coimbra e presidente da Junta de Freguesia da Sé Nova.
Mário Temido desenvolveu, ainda, todo um trabalho de luta e resistência contra a política do Estado Novo. “Foi democrata. Lutou pela emancipação do povo. Sofreu. Esteve preso. Foi terrivelmente perseguido”, recorda Manuel Bontempo, colaborador de “O Despertar”.

Este texto foi escrito não só a partir de relatos de familiares meus que com ele privaram mas também a partir de uma notícia publicada no jornal "O Despertar". Para mim, e não é por ser meu tio-avô, este é um bom exemplo de uma pessoa bonita.

Um beijinho e muitos parabéns por esta rubrica,
M

5 comentários:

  1. Adorei :)

    Sem dúvida uma pessoa bonita!!

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  2. Gostei do teu post e da mensagem enviada pela tua leitora.
    Num tempo dificil, é sempre de homenagear quem muito fez pelo seu próximo.

    Parabéns pela escolha.

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