19 de janeiro de 2011

Ainda o acordo ortográfico...

A nova ortografia, por Manuel Halpern
Um "cê" a mais

Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.

11 comentários:

  1. Gosto tanto dos cês, dos pês e dos hífens :(

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  2. Gosto da nossa língua tal qual ela é e não me conformo com a mudança.

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  3. Só mesmo os tugas. Vejam se os outros paises querem la saber disto. Enfim

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  4. ABAIXO O ACORDO ORTOGRÁFICO! Foram os "políticos de meia-tijela" que decidiram, e não nós! Recuso-me a engolir este "fato" dado como consumado, e qualquer português que se orgulhe de o ser deverá recusar também! É a nossa identidade patriótica que está em causa: ABAIXO, ABAIXO, ABAIXO!

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  5. Estou com a S*. Não me conformo!

    :s

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  6. amei a forma como escreveste isto querida
    Mas não me consigo habituuar.

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  7. Não fui eu Petrinha - o autor está lá, identificado! ;-)

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  8. menina do "fato" fique a saber que nem todos os cês saem, facto continua facto, assim como pacto por exemplo...é só mesmo nas palavras com letras que não se lêem. Podem confirmar aqui:
    http://www.portoeditora.pt/acordo-ortografico/conversor-texto/

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  9. Anónimo, não fui eu que escrevi o texto, tal como está identificado. De qualquer forma, gostei do mesmo, a forma como está escrito.
    Das minhas pesquisas, resulta o seguinte:
    "c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção".
    Mas sim, eu sei que se mantém ;-)

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  10. Belo texto. é a mais pura verdade, quando se escreve segundo o novo acordo, parece que falta algo, custa a encaixar

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Aceitam-se elogios, críticas, gargalhadas, lágrimas, sorrisos e afins