12 de janeiro de 2011

Da negação e contrariedade


O J. era um daqueles colegas de escola, da minha turma do 7.º, de quem toda a gente gostava e eu não era excepção. Simpático, brincalhão, defensor dos seus amigos e protector com as meninas. Eu gostava muito dele e considerava-o um dos meus melhores amigos e confidente. Ora o J. resolveu ter uma paixoneta por mim, numa altura em que eu estava mais preocupada em ser campeã de basquetebol, em manter conversas parvinhas com as amigas e em ler todos os livros da Marion Zimmer Bradley que o meu pai me oferecia, a um ritmo alucinante, do que em rapazes e namorados e confusões, que nestas coisas dos namoros eu fui um bocadinho tardia.
O J. pediu-me em namoro umas três vezes e das três vezes eu disse que não, salientando o quanto gostava dele como amigo (e nem era desculpa, era real). Ele reagiu bem à primeira, reagiu bem à segunda e à terceira olhou-me nos olhos e do alto do seu mais de 1,80 disse-me, com uns olhos que me congelaram, qualquer coisa como: "se fosses rapaz, dava-te um murro agora" - coisa que não fez sentido nenhum, porque se eu fosse rapaz ele não me pediria em namoro e que me assustou na hora. Mas passou. Pensei que tinha sido apenas um impulso parvo, naquela fase em que as hormonas ainda andam muito descontroladas e os rapazinhos não sabem lidar com meninas e com decepções de adiarem o tão esperado primeiro beijo.
Meses mais tarde, resolveu ter um comportamento menos próprio num jogo de basquetebol e eu, magrinha como tudo (perninhas de canivete e palitos e vez de braços, em tempos que já lá vão), mas que cedo aprendi a defender-me dos mais atrevidos, sem pensar duas vezes e completamente esquecida daquele episódio, agarrei-o por um braço e, sem saber muito bem como, rodei-o sobre mim e atirei-o ao chão, para risota total dos meus colegas de turma. Humilhação plena, com casa cheia. Creio hoje, ao analisar o momento, que se não fosse um outro colega (e amigo) J.P que se aproximou de nós, ele me tinha arrancado os bracinhos logo ali. Mas a coisa passou novamente e uns tempos depois o J. mudou de escola e perdemos o contacto.
Anos mais tarde, bem mais tarde, soube por uma colega comum, a L., que se reencontraram, trocaram contactos e que o J. iniciou uma perseguição daquelas doidas, compulsivas e assustadoras, ao ponto de lhe fazer esperas, chamadas, ameaças e eu sei lá mais o quê, tendo terminado só quando ela trocou de casa e de número de telefone e após muitos confrontos com o irmão e amigos dela. O rapaz simpático deu lugar a um monstro. O amigo deu lugar a um psicopata ameaçador. O colega por quem todos poríamos as mãos no fogo e que defenderíamos com a própria vida, revelou-se louco...Porque muitas vezes pensamos que conhecemos as pessoas, quando na verdade sabemos muito pouco delas e é nos momentos de confronto, de negação, de contrariedade, de perda, que elas manifestam o pior que há em si...o que é verdadeiramente aterrador...por isso há notícias que me chocam, mas que do ponto de vista da psicologia, não me surpreendem. É triste, mas é a realidade...

12 comentários:

  1. Não vale a pena chocar-se, tente compreender a espécie humana na sua complexidade simples ou se preferir na sua simplicidade complexa. E porque não tenta ajudar, quem provavelmente precisa de si...

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  2. Há um ditado que se aplica na perfeição: "quem vê caras, não vê corações". E já agora, digo eu, não vê, nem lê o que vai na mente de cada um. Há tanta gente, pelos vistos, com problemas de relacionamento e com caras de anjo que é assustador que um deles nos calhe no caminho.

    Um beijinho

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  3. A mente humana tem muitas flutuações... Sou daquelas pessoas que acredita que hoje estamis bvem e amanhã podemos estar completamente transtornados.
    Não escondo que tenho ataques de pânico, que sou seguida num psiquiatra e tomo medicação. Temos tido conversas muito interessantes e ele já me deu exemplos de passoas com quem aconteceram coisas surreais.

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  4. Nunca podemos presumir que realmente conhecemos as pessoas. É assustador.
    Beijinhos.

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  5. Ninguém sabe verdadeiramente o que vai na cabeça de alguém.
    Eu só tenho medo daqueles que damos como normais e que se revelam no seu pior depois...

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  6. A verdade é que podemos conviver mil anos com alguém e ainda assim em algum momento seremos surpreendidos com alguma atitude vinda da outra pessoa! A história do seu amigo me fez lembrar de um amigo de escola, esse porém não teve coragem de me pedir em namoro por 3 anos kkk e depois de 3 anos mandou uma mensagem no meu celular falando do que sentia!!! .... vai entender... ,

    http://flordelis02.blogspot.com

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  7. O cérebro humano é uma máquina, processa e canaliza informação, constrói, "vê" e "sente". Quando a homeostase cerebral é, por motivos interiores e/ou exteriores ao indivíduo, alterada, normalmente tal reflecte-se no relacionamento com o outro... E o que eu acho é que, cada vez mais, se têm verificado alterações nos padrões subjectivos/sociais a que estamos habituados, ou seja, distúrbios comportamentais limite. Estamos perante uma sociedade que cultiva e promove as personalidades desestruturadas, e aí está um grave problema, talvez o maior de todos.

    ;)

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  8. Sinceramente não percebo esse tipo de comportamentos. É cobardia e devia ter acompanhamento psiquiátrico.

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  9. O psicopata é inteligentíssimo, e para sua protecção procura muitas vezes com sucesso mostrar aquilo que precisamente não é.

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