14 de fevereiro de 2011

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Diabetes. AVC em idades proibidas. Desemprego, depois de 30 anos a trabalhar para a mesma empresa. Não ter dinheiro para comer, para ir ao médico, para apanhar um simples autocarro, para arranjar os dentes. Perder a custódia dos filhos por não ter dinheiro, nem emprego. Perder os amigos e até a família. Ter filhos doentes. Ser bipolar ou ter asperger ou ter familiares com estes problemas. Ter os pais em fim de vida e não poder fazer nada para lhes prolongar mais um sopro. Perder os dedos de uma mão, a mão tão precisa para trabalhar. Ser jovem e saudável e ter um acidente e perder a saúde física e a sanidade mental.Ter cancro e nenhumas certezas de sobrevivência, com filhos pequenos, que não compreendem o que se passa. Ter sido toxicodependente, porque a vida assim o permitiu. Não ter nada, nem ninguém a quem recorrer nos piores momentos. Ser avaliado constantemente pela cor da pele, pela idade, pela escolaridade, pelas roupas (pobres) que se vestem. Viver num bairro social, repleto de criminalidade e nada conseguir fazer para fugir a esse triste destino. Ser maltratada pelo marido. Violentada. Espancada. Ter medo de o dizer...
É este o público com quem trabalho. Com quem lido diariamente. Que me deixa de lágrimas nos olhos, assim que fecham a porta que nos separa. Que quero ajudar, mas sozinha não consigo. Que quero carregar nos meus braços, mas não tenho força suficiente. E que me deixa a pensar, todos os dias, o quanto nos queixamos, sem fazer a ideia do que se passa à nossa volta. E o que eu aprendo com cada um deles...

21 comentários:

  1. Realmente não deve ser mesmo nada fácil lidar de perto com situações dessas.
    Começaste logo por uma doença que eu conheço tão bem, infelizmente.

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  2. Imagino. Eu já contactei com algumas dessas realidades [em menor escala do que tu, querida Bê, certamente] e sei do que falas. Vem-se para casa com um aperto no peito e a lágrima quase a cair... E às vezes o único conforto é fazeres algo por eles. Quando podes. Quando te é permitido. E em troca um sorriso. Só isto.

    Já me aconteceu. Já deram aquele aperto de mão de quem agradece o simples facto de lhes ensinar algo [para a qual eu sou paga, atenção!] ou então um simples sorriso.

    Ainda no outro dia uma formanda me dizia: não há um único dia que você não venha a sorrir. E nem imagina o quanto isso é importante.

    Já comecei a escrever inúmeras vezes sobre isto, mas nunca publico. Guardo sempre para mim.

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  3. É preciso ter uma grande força interior para lidar com tudo isso todos os dias...

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  4. ... :/ é preciso ter muita força para lidar com casos desses todos os dias. parabens por isso. :)

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  5. Eu não sei se me aguentava muito tempo a lidar com pessoas assim! Sou muito sentimental e acabar-me-ia por ser inútil sempre que não pudesse fazer algo por essas pessoas.É preciso ter coragem. Continua.
    Beijinho

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  6. É preciso ter muita força e coregem.
    Mas o que fazes? Qual é o teu trabalho?

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  7. O ser humano aprende sob duas situações: ou por comparação ou por conhecimento de causa. Eu aprendi com a última, e tu também... E só tendo sido assim é que tens essa força dentro de ti que te faz lutar, acreditar e ajudar para um mundo melhor. Essencial: SEMPRE um sorriso nos lábios, mesmo que nos despedacemos todas por dentro - acredita que é um enorme conforto, para tanta dor que por aí existe.
    SÊ SEMPRE HUMANA, BÊ :).

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  8. força bê. de certeza que um trabalho desses não é fácil.. mas deve ser deveras recompensador =)

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  9. E eu que achava que para o meu emprego era preciso ter estômago...

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  10. Olha somos da mesma área...fazemos o nosso "poucaxinho". beijos nossos

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  11. Isso sim te obriga a valorizar o que a vida nos dá.

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  12. :( caramba, deve-se abater um sentimento de impotência de vez em quando...

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  13. Eu que trabalho num call center oisso tudo isso quanto mais com quem lida directamente... Esses são verdadeiros problemas!

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  14. Não poderia nunca fazer esse trabalho, não iria conseguir suportar!!

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  15. Um dia-a-dia a lidar com essas situações não deve ser nada, nada fácil... A carga psicológica deve ser mesmo enorme...

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  16. Custa muito a sensação de impotência perante casos assim :(

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  17. Como te compreendo, também sei que não é fácil. Se quiseres viver satisfatoriamente deixa os problemas no emprego. Que vale as nossas lágrimas, a nossa pena se nada podemos fazer a não ser dar uma palavra de consolo ou dar o pãozinho que era para o lanchinho da tarde.

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  18. Compreendo-te tão bem querida Bê.
    Sim porque revi alguns daqueles com quem trabalho no teu texto tão sentido.
    Entendo-te tão bem.
    Mas se por vezes me levam às lágrimas, também me trazem tantos sorrisos com as suas pequenas vitórias.

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  19. Realmente nao fazemos uma pequena ideia do que se passa a nosa volta. Vidas muito tristes e nos que por vezes nos queixamos que esta mau tempo por exemplo, damos importancia a coisas e aborrecemo-nos com promenores que nao valem nada.
    Admiro a tua coragem!

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Aceitam-se elogios, críticas, gargalhadas, lágrimas, sorrisos e afins