1 de dezembro de 2011

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«Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser juntos.O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO... e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe....O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal tratam é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim.»


Miguel Esteves Cardoso para a sua Maria.


As minhas memórias do IPO de Lisboa são as piores. Foi lá que vi pela última vez uma das pessoas mais importantes da minha vida, que mais me marcou e que mais falta me faz: a minha querida e doce avó M. Foi lá que ela me mostrou às enfermeiras, babada como sempre da sua querida neta, a mais parecida com ela no amor pelos animais e pelas plantas, pelos canteiros de poejos e pelas noites estreladas. A que ainda hoje adora tecidos às bolinhas que fazem lembrar a avó, que se lembra da voz dela, do seu cheiro e do seu calor. Foi lá que lhe dei um beijo e um abraço, confiante de que voltaria poucos dias depois para lhe fazer companhia, uma vez mais e para lhe dar muitos mais beijos e abraços. Mas o destino trocou-nos as voltas e pouco depois chegava a notícia do seu falecimento, quando a expectativa era a de que sairia em breve do hospital e dei por mim a acompanhá-la na sua última viagem até ao nosso Alentejo. Passaram quase 16 anos e ainda não recuperei da dor da sua perda. A saudade é mesmo eterna e ainda hoje choro com a lembrança. Sonho com ela frequentemente e nos meus sonhos tenho a benção de poder dizer-lhe o que não lhe disse no nosso último momento...

Por isso as minhas memórias do IPO são as piores, mas desejo do fundo do coração que seja como escreve o MEC, um local cheio de carinho e humor, uma casa, para os doentes, para as famílias para os amigos. Porque quem vive uma dor destas, merece um cuidado assim e toda a atenção do mundo.

10 comentários:

  1. Essa dor eu conheço bem, infelizmente... :(

    Revejo-te em tanta coisa que escreveste...


    [abraço apertado, querida]

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  2. Este texto também me tocou de forma profunda (os meus avós maternos morreram de cancro e um grande amigo partiu este ano com a mesma doença). Resta desejar-nos que tudo corra pelo melhor para o MEC e para a Maria João.

    E um abraço apertado para ti...

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  3. As minha lembranças do IPO são indescritíveis. Não sei defini-las como boas ou más. Se trataram bem de alguém que tanto amo? Sim. Até comigo se preocupavam nas horas infinitas em que estudava nas salas de espera. Se há coisa que existe lá é um espírito de união pelo bem do doente e da família.
    Mas como é óbvio preferia não ter visto o que vi.

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  4. Lindo, Bê.

    Nunca é um "Adeus", mas sim um "Até breve", no sentimento, na recordação, no sonho. O Amor que ambas - tu e a tua avó - sentem uma pela outra perdurará para sempre.

    Beijos!

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  5. O IPO é um lugar muito "pesado", mas cheio de alma ...

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  6. ai Bêzinha! até fiquei com as lágrimas nos olhos :( uma perda assim nunca se esquece! Beijinho grande!

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  7. Uma dor que fica para sempre.
    Beijinho grande para ti.

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  8. Fizeste-me chorar... Queria ter dito tanto...

    E agora ando de novo a frequentar, não o IPO mas sim um hospital que me traz as piores recordações e demasiado recentes para evitar que roa o que me resta das minhas tristes unhas, em cada visita.

    Beijos Bê

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  9. Obrigada a todas pelo carinho e pela partilha. Um abraço apertado para vocês.

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Aceitam-se elogios, críticas, gargalhadas, lágrimas, sorrisos e afins