1 de agosto de 2012

O estado em que estamos

Estou envolvida num projecto que implica ir a um bairro muito complicado sensibilizar as pessoas que são acompanhadas por um organismo, a darem continuidade ao seu percurso escolar, um trabalho de orientação, mas para maiores de 18 anos. Aplico-lhes testes de diagnóstico e faço relatórios de perfis e, em conjunto com esse tal organismo, encaminhamo-los para cursos que se adaptem às suas necessidades e que lhes permitam aprender uma profissão e, em simultâneo, melhorar (ou ganhar) as suas competências de leitura, de escrita, de matemática e até a aprender informática. de forma a poderem ter mais escolaridade e alguma preparação para a vida, fora da sua bolha social. Estou a referir-me a pessoas com 20/30/40 anos ou mais, muitas delas apenas com a 3.ª ou 4.ª classe, quase todas com imensas dificuldades teimosas. Estou a referir-me a pessoas que, na sua grande maioria, nunca trabalhou e que não se sente minimamente motivada para tal. Estou a referir-me a pessoas que vivem em habitações sociais e que recebem o rendimento social de inserção e que não têm sonhos ou ambições. Estou a referir-me a pessoas que provavelmente, enquanto tiverem casa e o dito rendimento, nunca irão trabalhar. Grupos de jovens na casa dos 20, com roupa da moda, resistentes a algo de bom que podemos estar a tentar fazer por eles. Pessoas bem mais velhas que sobreviveram até agora, porque o sistema o permitiu e que agora dificilmente aceitam que as coisas mudem. Todos eles cheios de manhas e a tentarem mostrar que a escola não é para eles (um deles até dizia que não sabia qual a sua data de nascimento ou morada, vejam só, outros trazem os cinco filhos e não os impedem de quase destruir a sala e roubar-me o material, apenas como forma de se imporem). E hoje, ao pegar em cada um destes casos para os analisar e dar início aos relatórios, percebi, de forma mais consistente, como o sistema está errado. Sobretudo quando sabemos de casos de pessoas que foram despedidas sem terem direito a nada, com filhos para alimentar, que querem trabalhar, mas os mais de 40 anos não ajudam, a par do quadro que se vive actualmente, e que por terem casa própria, não têm direito a qualquer tipo de apoio.

Algo está mesmo muito errado neste nosso Portugal...Hoje não foi um bom dia de trabalho.

9 comentários:

  1. Isso é assustador. Todos sabemos que há muito quem viva às custas do Estado, mas uns não podem ser penalizados pelos outros.

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  2. Trabalhar com esses grupos é complicado, há uma enorme resistência à mudança, tanto pelos casos que falas (de se encostarem aos apoios) mas também porque muitas delas não acreditam simplesmente nas suas capacidades intelectuais nem que a sociedade lhe esteja a dar realmente uma oportunidade.

    Portugal está a lidar com um problema estrutural, é por isso que vai ser dificil mudar e quem está e vai pagar somos nós.

    Bjokas

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  3. Deveria existir maior controlo na atribuição de apoios e dá-los a quem verdadeiramente os merece e se esforça por ter uma vida melhor.

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  4. O meu trabalho lida com o outro lado dos teus. No meu caso, faltam-me alunos... Somos daquelas escolas profissionais ligadas à area social, que paga tudo para os meninos estudarem e eles desistem (muitos porque têm de sustentar a família, é certo) mas muitos porque preferem viver doutro modo. Depois tenho os funcionários, a maioria mais desfavorecidos mas prata da casa (acho que nunca despedimos ninguém na vida), existimos há 20 anos e estão lá os mesmos desde sempre (muitos deles próximos dos 65) e, o que me preocupa é quando, por lei, tiver de renovar a prata da casa (vigilantes, cozinheiras, continuas, etc) vai ser tãoooo difícil encontrar gente assim dedicada porque, verdade seja dita, andamos um bocado com a mania que "determinado" emprego não é bom/suficiente para nós. Sei que, a ctualmente, a nossa realidade laboral são os contratos a termo e os CEI (ex-poc), eu própria estou à procura do CEI (e eu própria já fui POC) e, até agora, zerinho de interessados em plena Lisboa....

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  5. Sou completamente contra ajudar quem vive às contas do Estado.

    Essa ideia que o Estado é paizinho para quem não quer fazer nada tem que acabar.

    O Estado deve ajudar quem realmente precisa.

    Para isso apenas acho necessário uma fiscalização mais apurada, com métricas diferentes e váriaveis distintas.

    Assim não haveria tantas injustiças dessas, e esses preguiçosos que vivem as contas do estado iam trabalhar, iam pois.

    E as pessoas que infelizmente não podem/não ocnseguem iam ser apoiadas.

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  6. Gi -conheço bem essa realidade.

    Espiral- está tudo viciado e o que me custa mais é exactamente ver que quem precisa realmente de ajuda,não a tenha. Acompanho pessoas desesperadas porque não têm como pagar água, luz, gás e pior,comida. É muito triste.

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  7. Ohh Bê, e nessas alturas deves sentir-te triste....
    Devemos observar caso a caso, mas uma pessoa fica farta de ver que andamos a trabalhar e descontar para uma cambada de preguiçosos manhosos.

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  8. É do arco da velha... é uma coisa tão revoltante... o pior é que esse sistema errado pode proporcionar o surgimento de movimentos racista e xenófobos e discriminatórios. Porque chegas a esses bairros e vês muitas cores e etnias...e o senhor que ficou sem trabalho e sem casa começa a pensar na discriminação positiva do sistema.. e pode acontecer...
    Acredita que sei bem do que falas...só que eu nunca os visitei em casa..mas sim em estabelecimentos prisionais e a postura é exactamente a mesma!

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