16 de janeiro de 2013

Sobre uma das polémicas do momento

Lembro-me como se fosse hoje, de um dia já distante em que fui com o meu querido cão, o Rafa, ao veterinário. Na sala de espera estava um rapaz com um rottweiler ainda jovem, que abanava a cauda a tudo o que mexia. Quando me inclinei para lhe fazer festinhas (eu e esta minha mania de sempre, de fazer festas a todos os animais) o rapaz solta-me um "cuidado que ele é mau". Cruzes, credo, pensei eu. Que perigoso que é aquele rapaz. Não devia ter um cão, muito menos um cão com um potencial daqueles, que precisa acima de tudo de disciplina e, claro, de amor. Fiz a festa ao cão, que se derreteu todo e ignorei o rapaz. Acredito que, mais tarde, se tenha efectivamente tornado um cão mau, quando essa era a clara e expressa intenção do dono. Perigosas são as pessoas, é o que tenho aprendido.
No ano passado perdi o meu Rafa e o meu coração ainda hoje sofre a sua perda. Choro-o com uma frequência que muitos podem achar absurda. Mas no coração não se manda. E ainda me custa chegar a casa do meu pai e não ser recebida por ele. Custou-me no natal não o termos connosco, sempre feliz com a casa cheia, sempre brincalhão, sempre atrás de mim.
Isto para explicar que eu não ia escrever nada sobre a história do cão. Li muita coisa, senti muita coisa, mas ia ficar caladinha no meu canto. Toda a gente tem uma opinião e muitos julgam a sua como irrefutável. Eu tenho a minha, que é apenas a minha opinião e não tento vendê-la a ninguém. O que me entristece por aí é a quantidade de pessoas que fala dos "defensores de animais" como um grupo de fanáticos, irracionais, que colocam os animais à frente de todo e qualquer ser humano e que se são defensores de animais, não o são de qualquer outra causa. Errado meus caros.  Eu considero-me uma defensora dos animais. Desde pequena que os recolho da rua, que os alimento, que levo animais abandonados e doentes ao veterinário, suportando os custos. Tenho três gatos na minha casa e nove na casa do meu pai, a quem dou todo o meu carinho e sim, amor. Porque o que se sente pelos animais, quem realmente gosta deles, é uma forma de amor. E só o sentimos porque é o que eles realmente nos dão. É um sentimento de retorno. Existem outras formas de amar e cada um ama à sua maneira e não temos todos que amar os animais. Eu amo com um sentimento de protecção imenso. Amo com carinho. Amo com palavras. Falo com os meus gatos. Dou-lhes beijos a toda a hora e fico tremendamente preocupada se algo não me parece bem, se não comem ou se me parecem diferentes. E se houvesse um tremor de terra, sei que não sairia de casa sem salvar o meu marido e os meus gatos. Mas não gosto menos de pessoas por isso e não amo mais os meus animais do que qualquer pessoa que me é próxima e importante. Sou também uma defensora das pessoas. É por isso que à minha maneira, ao longo destes 34 anos de existência, já salvei muitos animais. É por isso que faço trabalho voluntário junto de idosos, que precisam de companhia, de atenção e de carinho. É por isso que publico imensas coisas no facebook sobre protecção animal. É por isso também que sou dadora de medula óssea e dadora de sangue e publico todas as campanhas e pedidos de ajuda de que tenho conhecimento. É por isso que me emociono com a história dos cavalos abandonados, sem comida e sem água, como me emociono com a reportagem sobre um senhor que se viu obrigado a viver na rua, porque perdeu tudo e que recusou toda e qualquer casa para onde não pudesse levar o seu cão - aquele senhor, abandonado por muitos, não o foi, nunca, pelo seu cão. Ser defensor de uma causa não invalida ser defensor de outra. Amar animais não significa amar menos as pessoas.  É esta a minha vivência, é esta a minha opinião. E sei que não sou a única a sentir assim.

20 comentários:

  1. Lindo texto. Compreendo perfeitamente.
    Nao podia estar mais da acordo.

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  2. Não, não ès a única. Eu partilho a mesma opinião que tu e sou tal e qual como tu!
    Nem sei o que dizer mais... as tuas palavras disseram tudo!

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  3. Não podia estar mais de acordo. Eu tb tenho um cão e amo-o imenso, se ele está bem e feliz eu tb estou se não está, eu tb não estou mas isso, não significa que não amo as pessoas porque amo e sempre que posso protejo mas, tb amo os animais e se existe coisa que me deixa de coração partido é ver um animal a sofrer!

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  4. Nem mais nem menos. Amor que não se explica. Beijinhos

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  5. Não és mesmo a única. Eu amo a minha bichana e as minhas cadelas de uma forma que não sei explicar e todos os dias tenho saudades da minha gata bolinhas e da minha cadela Salera que já não estão comigo. Tenho tantas saudades*

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  6. Adorei o texto. Concordo em absoluto contigo! Beijinhos*

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  7. É isso tudo. Não poderia ter lido um texto mais sensato e bonito. Amo animais e defendo-os com unhas e dentes, o que não significa que ame menos as pessoas. Os amores complementam-se.

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  8. Costumo seguir o teu blog(espero que não leves a mal tratar-te por tu)e gosto particularmente da tua escrita, muito terrena mas simultaneamente muito humana. Não é meu hábito comentar, mas hoje não posso deixar de o fazer...
    De tantos textos sobre o assunto, o teu impressionou-me e tenho de dizer que concordo a 100%. Confesso que estou cansada da pretensa divisão "defensores dos animais" versus "defensores dos humanos". Acredito que quem consegue ver num animal um ser com necessidades e merecedor de respeito, não pode olhar para um ser humano de outro modo.
    Os meus três gatos fazem parte da família (aliás, escrevo com um ao colo, o que não é totalmente fácil), chegar a casa e ter três caudas levantadas a receber-me é um dos momentos altos do dia. Vieram todos da rua e educá-los (sim, porque amar também é educar)foi um desafio necessário e prazenteiro.
    Isso não implica não olhar para o ser humano! Trabalho com idosos institucionalizados por vocação, porque gosto, porque sinto que faço a diferença. Não são pobres coitados, são pessoas com quem já aprendi muito e que têm uma vida inteira de histórias e vivências para partilhar...
    Para quem não costuma comentar, hoje excedi-me! E já vão dois gatos no colo!

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  9. A Paraíso, podes e deves tratar-me por tu :-)
    Obrigada pelo teu comentário - também eu te respondo com uma das minhas gatas enroscada em mim!

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  10. Aplaudo este teu texto porque com ele acabaste por calar todos os que dizem que quem defende os animais, mais propriamente o Zico, prefere os animais ao homem. Nada disso, amamos os animais como amamos os homens e por isso aceitamos visões diferentes mas nunca maus tratos ou abandono sejam eles de homens ou animais. Escrevi sobre o assunto porque ando farta de tanta irresponsabilidade e de ser sempre o animal a pagar pelas atitudes humanas. Beijinhos

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  11. Perto de mim há um jardim onde as crianças dos infantários próximos passeiam por vezes.Há uns tempos passei e eles andavam a atirar umas 'coisas escuras' uns aos outros. Fiquei curiosa e descobri: estavam a atirar cocós de cão secos uns aos outros...
    Os jardins e parques 'públicos' tornaram-se um perigo para a saúde pública, sobretudo das crianças, que levam as mãos à boca e aos olhos,os cocós têm larvas que alojadas nos olhos provocam cegueira, muitos cães terâo carraças e vejo donos a escovar os cães na rua sentados num banco do jardim, no prédio onde moro e nos passeios circundantes há cocó e chichi de cão por todo o lado e agora digam-me se isto é respeitar as pessoas, para já não falar em gostar delas?

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  12. Caro Anónimo, embora me pareça que nos seu texto se está a expressar claramente contra os defensores dos animais, devo dizer-lhe que eu, enquanto defensora de animais e de pessoas, concordo completamente com a falta de higiene e de cuidado que infelizmente algumas pessoas demonstram. Inclusivamente já escrevi um post sobre isso mesmo, já que é um mal que sofro diariamente na minha rua e que simplesmente não compreendo, ainda para mais quando temos bem perto um espaço apropriado, com sacos para limpeza e tudo. Agora não podemos generalizar e achar que todas as pessoas que têm cães o fazem e que todas as que até o fazem são más pessoas e não querem sequer saber de humanos, só de animais.Fazem-nos falta campanhas de consiencialização e uma legislação mais apertada, com vigilância. Assim como no que diz respeito às pessoas que atiram lixo para o chão ou que não reciclam, entre muitos outros exemplos que poderia debitar por aqui.

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  13. Acrescento que ter um cão não significa ser defensor dos animais...antes fosse!

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  14. A Paraíso - nem mais. Eu diria mesmo que muitas pessoas deviam ser proibidas de ter animais :-(

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  15. Eu concordo com cada palavra do que disseste. Mesmo.
    Do pouco que conheço do caso (porque me desligo muito destas notícias de "faca e alguidar") entendo que seja o caso de um animal cuja educação tenha sido à base da violência, tenha sido essa a realidade que conheceu. Entretanto há uma criança que é assassinada (é essa a palavra). E porque me consigo colocar, muito facilmente, na posição dos pais dessa criança de 18 meses, e porque o simples facto de o imaginar me arrepie da ponta do cabelo ao dedo do pé, acho que tem havido uma tremenda falta de respeito e de luto. Essencialmente de respeito.

    Numa situação ideal prenderia os dois, dono e cão, na mesma cela, se possível. Mas não me parece que isso seja possível.

    Beijinho, Bê.

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  16. Art*zinha, concordo plenamente. E este meu post não tenta sequer debater o assunto, propriamente dito, até porque não li o suficiente, mas sim a forma como determinadas pessoas são atacadas - não é de agora, infelizmente.

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  17. Como as tuas palavras são tão verdadeiras e como eu me identifiquei completamente com elas.

    Tantas vezes sinto, na primeira pessoa, essas comparações estúpidas e pequenas de gente que pensa muito pequeno.

    Nós, que gostamos de animais, e damos voz a quem não a tem somos muitas vezes vistos como fanáticos e que pomos os animais à frente dos seres humanos.

    Não temos que colocar prioridades nestas situações. Todos têm um lugar neste mundo. Todos precisamos de todos.

    Um grande bem haja para ti. Continua com este amor, carinho e protecção dos animais, das pessoas, dos seres vivos em geral.

    Sónia Barreto

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  18. Sem palavras... revejo-me nelas! :)
    Continua com esses gestos de ajuda genuinos!

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