22 de agosto de 2013

Porque eu sou uma pessoa de gatos e de cães...

O Tobias é o gatarrão cá de casa. Meigo que só ele, espera-nos à porta do quarto, quando acordamos, ou à porta da rua quando estamos a chegar a casa e em qualquer destes momentos exige o seu momento de festas e carinhos, que celebra com um ronrom digno de fazer tremer a fachada do prédio. Segue-nos para todo o lado. Deita-se no bidé enquanto tomo banho (durante anos tentei evitar, mas acabei por desistir - eles são donos de uma persistência que me ultrapassa) e senta-se à mesa connosco, atento ao que comemos e com a certeza de que vai ganhar algo. E lá se mantém mesmo quando comemos algo que não lhe interessa, porque o Tobias é um gato de pessoas. Gosta da casa cheia de gente. Gosta de experimentar os colos todos. Gosta de conquistar afectos. Gosta de nos sentir e de nos acompanhar. Faz uma coisa muito particular - o miaucejo - meio miado, meio bocejo que lhe é tão frequente e característico que nos deixa sempre de sorriso nos lábios. Puxa a minha mão com a sua própria pata, para que lhe faça festas, das quais nunca se cansa. É aquele gato de quem todos, mesmo os não apreciadores de gatos, gostam. Não é possível ficar-lhe indiferente, porque quanto maior é a indiferença de quem vem cá a casa, maior é a insistência dele em conquistar o colo e logo logo o coração. Quando o P. chega mais tarde do que o habitual fica a miar para a porta da rua, desejoso que o dono do seu coração chegue e aí começa a grande perseguição por toda a casa, sempre carente de mimo, sempre bem-disposto.
 
A Blue é a minha menina. A minha eterna companheira. Começamos por ser só as duas, antes de o P. e depois os outros dois gatos, virem viver connosco. Não passa grande cartão a pessoas de fora, mas não se afasta, nem ataca ou algo que se pareça. Apenas tem um amor imenso por mim e pouco lhe sobra para dar aos outros. Sabe quando eu não estou bem e nesses momentos agarra-se a mim que nem lapa, com um ronrom e olhos de carneiro mal morto, capaz de me encher o coração de amor. Conversa comigo a toda a hora. Sabe como miar para eu deixar tudo o que estou a fazer e alapar-me a ela cheia de mimos para dar. Gosta de brincar às escondidas comigo, mas nunca ataca. Apenas salta pela casa, feliz e liberta. Adora quando vou ler para o quarto e a levo a ela e só a ela, porque sente que lhe pertenço e que aqueles momentos são só nossos - e na verdade as marradinhas que me dá são tão fortes e frequentes, que às vezes mal consigo aguentar o livro nas mãos. E depois deita-se o mais colada a mim possível. Entende-me e eu entendo-a. Somos cúmplices.
 
A Gata é a assustadiça. Já está connosco há 7 anos, mas antes era uma menina abandonada numa jaula de veterinário que sofreu sabe-se lá quantos golpes de azar na sua então pequena vida, que ainda hoje, depois de uma vida imensa connosco, tem medo da própria sombra. Adora-nos. É carente e adora festinhas na barriga. Até há muito pouco tempo atrás não se deixava ver por pessoas de fora, era a gata fantasma. Aos poucos foi ganhando alguma confiança, aproxima-se e quando alguém lhe dá uma festinha, já não larga as pernas da pessoa. Mas continua a preferir o sossego de uma assoalhada da casa onde está os dias quase inteiros a dormir na paz dos anjos e só ao final do dia gosta de se vir deitar no meio de nós no sofá, a pedir festas, ora a um ora a outro, sempre de olhar apaixonado e feliz.
 
Os meus gatos nunca me deram qualquer prova da infidelidade que normalmente se lhes atribui. Nunca me atacaram. Nunca me trocaram, nunca me desiludiram. Por vezes portam-se menos bem - afiam as unhas no sofá ou nas cadeiras, fazem perseguições pela casa a altas horas da noite, mas isso é o pior que posso dizer deles, o que para mim, não é nada, comparado com o que eles me dão. Os meus gatos não são independentes. Quando vamos para fora e não os levamos, é certo que se aguentam bem os três (a minha mãe normalmente vem vê-los dia sim, dia não) mas quando chegamos estão tão carentes e melosos, que antes de pousarmos as coisas, já estamos agarrados a eles. Os meus gatos não nos atacam, nem mesmo a pessoas estranhas (um dia conto a história de quando o Tobias tentou conquistar os senhores do gás. Ou de como o senhor que nos vinha trazer comida indiana a casa ficou tão encantado com as recepções dele, que arranjou um gato também.) Os meus gatos entendem-nos. Sabem que não é não, mas, como persistentes que são e donos de uma personalidade afincadamente forte, gostam de insistir e de nos provocar, não por malícia, mas por brincadeira e teimosia. Eu não sou uma pessoa de gatos OU de cães. Sou uma pessoa de animais e amo-os na mesma proporção e da mesma maneira. Tenho gatos porque os amo e porque vivo num apartamento não muito grande e a nossa vida ocupada não nos permite dar a um cão a companhia e o acompanhamento (idas à rua) que o mesmo exige. Mas toda a vida tive cães - no ano passado perdi o meu menino, o Rafa, que depois de eu arranjar casa, ficou a viver com o meu pai, que tinha todas as condições para ele ser feliz e tanto amor para lhe dar quanto eu. Mas estava com ele todas as semanas e foi o melhor dos cães e ainda hoje sofro quando chego a casa do meu pai e ele não está lá para me receber e para nos cheirar o rabo, como gostava de fazer. Tive outros cães ao longo da minha vida, cuja lembrança ainda hoje me amargura o coração, de tanta saudade que sinto.
 
Não quero com este texto afirmar que os gatos são melhores do que os cães. São diferentes. Como os homens são diferentes das mulheres, ou as crianças dos adultos. Não os comparem. Fico triste sempre que leio alguém que escreve que não gosta de gatos, mas gosta de cães. Têm que lhes dar uma oportunidade - se eu tivesse desistido à primeira dentada de um cão ou arranhadela de um gato teria perdido uma vida inteira de carinho e de amizade. Entendam-nos como eles são, com as suas características e com a sua personalidade - todos diferentes uns dos outros. Não somos afinal nós humanos, também diferentes uns dos outros?

13 comentários:

  1. por duas ou três vezes fiquei com lágrimas nos olhos (':
    é lindo o amor que tens aos teus gatos e eles a ti (:

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  2. Pedimos desculpa mas é apenas para divulgar. Um casal, a crise, poupanças e histórias de quem vive a crise como muitos outros, mas onde a poupança é o melhor remédio. Pode passar a mensagem…? Obrigado! um blog engraçado

    http://ocarteiravazia.blogspot.com/

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  3. Curioso como este post surgiu na altura em que fiquei com um gatinho :)
    Se pudesses fazer um post com dicas e coisas que tal eu ia gostar muito :D

    BEIJINHO***

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    1. Dreamer, diz-me que tipo de dicas necessitas! Terei todo o prazer em partilhar a minha experiência contigo!

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  4. Cá em casa a minha gata é tal e qual um cão: segue a minha mãe para todo o lado. Se ela está a tomar banho ela coloca-se estrategicamente em cima da balança que temos na casa de banho, se ela anda a fazer a cama ela coloca-se em cima da cama (não quer saber se a minha mãe consegue ou não fazer a cama). Se a minha mãe anda a regar o jardim ela coloca-se no ombro dela tal e qual um papagaio. É certo que também gosta de mim mas tem um amor incondicional pela minha mãe. A minha gata é cega e completamente passada daquela cabeça, adora andar em cima dos armários e deitar tudo o que esteja em cima deles abaixo, adora tirar todos, TODOS os tapetes que temos em casa do sítio, adora esconder-se em sítios improváveis e prega-nos sustos de morte quando não a encontramos em lado nenhum (pensamos sempre que caiu de uma janela, ou da varanda ou está fechada em algum lado).
    Também tenho duas cadelas que amo de paixão que são a coisa mais fofinha e lamechas. São capazes de destruir tudo, mas deixam-me sempre de sorriso nos lábios e isso vale tudo :)

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  5. Tenho que repensar... eu sou das que dizia que não gostava de gatos mas gostava de caes... mas concordo contigo!

    grata

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  6. Descobri este blog e adorei! Estive a ler várias mensagens antigas.
    Eu também sou uma pessoa de animais e não de uma espécie específica. Não posso ver nenhum a sofrer, seja uma tartaruga ou um cão. Tento chegar a todos, mas, infelizmente, não se consegue salvar todos os animais do mundo :(

    http://miscelaneathesecond.blogspot.pt/

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  7. Eu também sou pelos dois
    A minha história com gatinhos nunca foi muito feliz, tive três e perdi-as todas por motivos diferentes em muito muito pouco tempo. :(

    agora trouxe uma da rua que se assusta como o barulho que ela própria faz quando mexe na porta e que ainda tem medo de muita coisa, já me fez uns Fu Fus e uma vez um arranhãozinho, mas nem a julgo, a vida dela mudou muito nos últimos tempos :)

    depois disso resgatei um pequenino que não ía sobreviver, está numa FAT até arranjar uns super donos (é só bigodes e orelhas aquele gatinho)

    e resgatei uma gatinha preta cega de um olho que andava sempre colada a mim e descobriu-se que tem uma pneumonia

    http://kittensandelephantsss.blogspot.pt/

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  8. Em criança nunca tive um animal de estimação... Lia os livros dos "Cinco" e "Uma Aventura" e pedia aos meus pais um cão como o Tim da Zé ou o Faial do João. A resposta era sempre igual: Animais em casa, não! Lembro-me que era o pedido que encabeçava toda e qualquer lista para o Pai Natal (já com plena consciência de que o mesmo era na verdade os meus legítimos progenitores). Não era uma criança de birras ou pedinchices, mas choramingava a pedir um cão. Quando ia a casa de amigos que tivessem um cão, delirava (ainda me recordo de todos). E...nada!
    Depois vim estudar para Lisboa e em quartos alugados o máximo que podia ter era uma tartaruga. Essa tartatuga, de nome XP e já com mais de 10 aninhos é agora o quase-dinossauro da casa.
    Quando finalmente comprei uma casa encontrei finalmente o espaço/liberdade para ter um animal de estimação. Ora ainda as paredes não estava pintadas já pulava uma pequena e terrível criatura cinzenta de nome Scaramouche. Ar inocente, unhas e dentinhos prontos.Marinheira de primeira viagem estava assustada com aquele palmo de gato que em segundos tinha ataques de Picasso nas minhas pernas... Li muito, perguntei tanto e a minha Mouchinha (ou Imperatriz Scaramouche nos seus momentos de diva) é hoje A minha gata, ou melhor, eu sou a humana dela. Sem questões, é vaidosa e gosta de se exibir a todos, mas eu sou a sua paixão, o centro do seu mundo e a minha missão na Terra é dar-lhe atenção.
    Passado um ano veio o gato-vaquinha Sirius. Um bom gigante, doce para tudo e todos. Tem um carinho especial meu meu namorado e como passatempos a esfrega compulsiva nas malas e casacos das visitas. Chamam-lhe o gato-cão pelo meigo que é, eu acho que é simplesmente o meu Siriuzinho.
    E no ano seguinte surgiu a pequenota Tricot. Vinda da rua (como todos, aliás), era suposto ser dada para adopção. Era uma pequena fera a proteger a irmã da gigante-monstruosa-eu, parecia uma pequena cobra cuspideira...e assim conquistou o seu lugar, pela sua coragem, pelo seu ar indefeso enquanto me fazia frente. É mais assustadiça e é actualmente uma pequena bolinha preta...a vida lá fora era dificil e agora aprendeu que dormir e comer na segurança de uma casa sabe bem. Sou a sua humana, mas se estiver sozinha também não se aborrece..
    Os meus horários não permitem ter um cão, e num apartamento pequeno é complicado, especialmente quando eu gosto de cães médios/grandes, mas adorava e conto um dia ainda ter. Cães ou gatos? Porquê escolher?!
    Desculpa o tamanho do desabafo, entusiasmei-me!!!

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    1. A Paraíso, revi-me tanto nas tuas palavras! Qual tamanho do desabafo, é sempre bom ler comentários assim :-)

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  9. Como eu te compreendo :) eu também sou pelos animais e cada vez mais, e não são só cães e gatos, são os patos, as galinhas e agora uma borreguita que alimento a biberon de 2 em 2 horas. Eles não nos decepcionam e têm a característica de nos fazer rir quando estamos a chorar.............cá em casa (dentro de casa) tenho 2 cães e 4 gatos lá fora 3 cães, uma borreguita, galinhas e patos, é uma casa cheia e na maior parte do tempo nem tempo tenho para pensar em coisas tristes:)

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  10. Percebo-te perfeitamente!
    Também eu sou pessoa de bichos; gosto de cães (tenho a Mel), gosto de gatos (tenho a Rita, o Bati e a Nônô) e gosto dos outros todos também (répteis e tubarões é que não muito, mas lá chegarei).

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  11. Não costumo comentar, no entanto após ler este texto ( que poderia ter sido escrito por mim ), não posso deixar de te ( podemos tratar-nos por tu? )agradecer por seres a pessoa bonita, generosa, que demonstras nos teus textos. Tambem eu sou uma pessoa de animais, sempre cresci entre cães e gatos, e acho que isso tem grande influencia na construção da nossa personalidade. Aprendemos com eles a ser mais tolerantes, pacientes e principalmente percebemos ( porque é o que eles nos dão ) o que é o amor incondicional que eles nos devotam. Tambem por morar num apartamento só tenho 2 gatos ( a Mimi e o Kiko ) e faz-me confusão quando oiço pessoas dizerem que eles são uma prisão, que estragam as coisas, patiti, patatá....eu quando os adoptei (ainda bebés ) já sabia que eles tinham pelos e unhas...so what?....A minha casa é tambem a casa deles e o que eles me dão em troca, compensa todas as outras coisas. Não conseguiria viver sem animais, penso que nos tornam melhores pessoas.Ainda bem que existem pessoas como nós. Para mim todos os animais que tive ( e tenho ) são membros da minha familia, e graças a deus, fui educada assim, pois toda a minha familia pensa da mesma forma. E para terminar, resta-me acrescentar que todos eles só enriqueceram a nossa vida.
    Beijinhos
    Andreia Gama

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