9 de maio de 2014

Memórias

No forno um bolo de mel, com sabor a Alentejo e a infância. O cheiro fortemente familiar espalha-se pela casa e toda eu sou memórias. É o primeiro bolo de mel que faço desde sempre, porque era o bolo da minha avó, que depois da sua morte, ficou da responsabilidade da minha mãe. E depois percebi que é coisa que passa de mãe para filha por gerações e gerações e, mesmo não tendo eu uma filha, está na altura de assumir a responsabilidade de o fazer. Um dia ensinarei à minha irmã e, quem sabe, a alguma sobrinha que o destino queira trazer. 
Quando se faz um bolo, quase melhor que comê-lo, é o momento de lamber os resquícios que ficam nas tigelas e que nunca chegam a conhecer o calor do forno. Só esse gesto me trouxe um sem número de sensações e quase me senti a pequena de cinco anos, cabelos louros e olhos curiosos que adorava ajudar a amassar a massa e lamber colheres na grande mesa de mármore branca da cozinha mágica da minha avó, onde gatos passeavam por entre as minhas pernas, prontos para me tornar a sua amiga número um e os passarinhos cantavam nas suas gaiolas impecavelmente cuidadas. Assim nasceu o meu amor pelos animais, que viviam em cada canto e que me deliciavam com os seus mimos e inteligência. Ao fundo dessa cozinha enorme e antiga havia um pequeno quarto - penso que, outrora, o quarto das criadas - onde estavam dois armários cheios dos livros da infância da minha mãe e que eu devorei a partir do momento em que aprendi a ler. Aqui nasceu outro amor, o amor pela leitura.
No quintal, grande e com casas e casinhas pequenas onde antigamente se guardavam os cereais, as azeitonas e coisas que tais e ainda com um pequeno pátio onde havia coelhos deliciosamente doces e simpáticos, havia árvores de fruto, flores, plantas aromáticas, meticulosamente tratadas pelas mãos magras, envelhecidas mas firmes, da minha avó. Outro amor que ganhei: o amor pelo verde, pelas plantas e pelas flores e, por inerência, por todos os bichos e bichinhos que vivem em comunhão com a natureza: abelhas, borboletas, joaninhas, bichos de conta, aranhas, formigas e tantos outros. E respeito. Respeito pela natureza.  
Já aqui escrevi sobre o Alentejo, onde vivi quando era pequena, onde fiz a segunda classe e onde, ainda hoje, mora uma parte do meu coração. E agora, ao fazer um simples bolo, viajei no tempo, para essas memórias felizes e, enquanto escrevo estas palavras, percebi a forma como o Alentejo e a minha avó fazem parte do que sou hoje. Por isso sentirei sempre que sou uma lisboeta, com alma e costelas orgulhosamente alentejanas.  

16 comentários:

  1. Querida Bê,

    E eu, ainda o ano passado, quando, a meio da noite, à chegada ao Alentejo, tive de sair do carro no meio de uma estrada iluminada pelas estrelas (já não sei para quê), sorri sozinha, assim que senti o cheiro e o som do "meu" Alentejo. Não sou alentejana, nunca lá vivi, mas o meu pai é, e, para mim, o Alentejo, a Mina de São Domingos, é a minha terra. Por isso, percebo muito bem o que descreves.

    Beijinho grande

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    1. Não há céu estrelado como o Alentejano :-) Adoro!

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    1. Numa pequena mas maravilhosa aldeia, perdida algures entre Moura e Barrancos - Safara :-)

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    2. Acompanho o blog... e sou do litoral alentejano... :)

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    3. Todos os anos faço férias no litoral alentejano e sou tão feliz lá :) Adoro!

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  3. Mas que delícia de memórias, cheias de sabor, perfume e amor.

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  4. O meu/nosso Alentejo... E como sabe bem ler-te, e rememorar a infância ida! Hoje preciso voltar lá atrás...

    Beijos, querida Bê!

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  5. Visita: http://segredoseraparigas.blogspot.pt/

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  6. Que texto maravilhoso! Como me identifico com ele!! Nasci em Lisboa mas a minha infância e férias grandes foram passadas no Alentejo! A minha Avó materna era de lá! O espaço, os cheiros, os banhos e lanches com os primos (primas),f+erias e dias loooongos .....que Saudades!!

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    1. :-) Também morro de saudades e anseio pelo dia em que possa criar novas memórias por lá.

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  7. Safara? A Minha amiga são é de lá, ou de ficalho.. ...agora tenho dúvidas.

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    1. Se for moça para a minha idade, conheço de certeza! Se for mais nova não, porque desde que a minha avó faleceu, em 96, só fui lá duas vezes. Mas continuo a adorar aquela aldeia e sonho um dia voltar para lá :)

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  9. E eu sou uma nortenha completamente apaixonada pelo Alentejo.
    É um lugar de sonho ao qual nunca me canso de voltar. Adoro o silêncio daquelas planícies, o dourado daqueles campos e... as noites estreladas :)
    Beijo

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