30 de junho de 2014

Das saudades

Quando era pequena, franzina, tímida, mas já determinada e com conversa de gente grande, naquela fase em que todos os sonhos e esperanças cabiam no meu coração, o meu avô materno morreu. Eu e o meu irmão estávamos a passar férias no Alentejo, com os meus avós e foi numa triste noite de Junho que, numa ambulância a caminho do hospital mais próximo (a 20 km da nossa aldeia) o coração do meu avô parou de vez, com a minha avó, o amor da sua vida (e da minha também), ao seu lado. Eu tinha oito anos e o meu irmão dez e a morte tinha acabado de visitar a nossa família.
Numa aldeia pequena como a nossa, os velórios eram (não sei se ainda são) feitos em casa. Assim, no grande escritório onde o meu avô se sentava a fumar os seus cigarros, perto da sala de jantar, onde tudo para mim cheirava a antigo com história e onde imaginava nos tempos mais antigos, meninas de longos vestidos, a namorar nas enormes janelas, meio escondidas pelas pesadas cortinas, estava o corpo do meu querido avô, pela última vez. Juntaram-se cadeiras e todos os familiares, amigos, vizinhos e beatas carpideiras passaram lá horas e horas de choro, de reza, de palavras sentidas ou discursos típicos destas alturas.
Do que mais me lembro é do sentimento da perda, do cheiro da morte e das flores a secar, do som do choro indefinido e do medo terrível de perder a minha avó. Os meus avós eram um casal muito apaixonado, que lutou para ficar junto, que passou uma vida longa, cheia de provas difíceis de superar e cujo amor alimentou a minha esperança no futuro, depois de ultrapassar o divórcio dos meus pais. Passaram-se dias, meses (na altura, depois de ter vivido com os meus avós cerca de um ano, passava todas as minhas férias no Alentejo) em que eu acordava durante a noite e ia ver se a minha avó estava viva. Ficava quieta, no escuro, a ouvi-la respirar e com um medo terrível de a perder e a certeza de que não o aguentaria. Mas aguentei, quando menos de dez anos depois a perdi para um cancro que ainda hoje acredito que se começou a formar e a minar naquele desgosto de amor daquele triste início de verão, de quando eu tinha 8 anos e era só uma menina pequena, franzina e tímida.
A dor da perda não é algo que se compare, que se possa medir, que se possa explicar. Não há palavras que traduzam fielmente o que se sente cá dentro. O nó doloroso na garganta, o buraco imenso no peito, o desnorte, o vazio...Cada um a sente da sua maneira, sofre à sua maneira e hoje, passados cerca de 18 anos, ainda me sinto sufocada pela saudade daquela mulher doce, de pele suave e cheirosa e sempre arranjada, que me passou o amor pelos animais, pelas flores e pelo Alentejo e que foi um pilar tão importante para mim. Ainda me lembro tão bem do som da sua voz e da sua gargalhada sentida. Da forma como contava anedotas alentejanas e jogava às cartas connosco. Dona de um grande sentido de humor, passámos noites em que telefonava para pessoas das listas telefónicas, cujos nomes característicos eram para si um convite para fazer piadolas, para gáudio do meu irmão e quase vergonha minha. Foi a dor maior que senti em toda a minha vida e que me acompanha ainda hoje. O tempo ajuda um pouco, mas só um pouco, porque nos vamos habituando, mas as saudades, as saudades são cada vez maiores. Resta-me a certeza de ter sido abençoada por 17 anos da sua existência na minha vida, com ensinamentos e amor que me acompanharão por todos os anos que ainda viverei. 

6 comentários:

  1. Tão linda e tão cheia de sentimento a sua história.

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    1. E de saudades...foi escrito com tanta saudade...

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  2. Verdade Bêzinha... sinto tantas vezes saudades dos meus avôs.
    Felizmente ainda tenho a sorte de ter as mulheres deles comigo, para as encher de mimos e recordar as histórias dos homens das suas vidas. E ontem, como noutros momentos semelhantes, em silêncio, fico a observar 4gerações de mulher a beber um chá em volta da mesa redonda onde joguei ao rapa com o meu avô.
    beijos

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    1. Já só tenho uma avó viva, com quase 83 anos. Depois da minha avó materna, ainda perdi o meu avô paterno, uma das melhores pessoas que tive a felicidade de ter na minha vida. Ficam as lembranças e a esperança de existir "o outro lado" ;-)

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  3. A tua avo claramente foi um grande pilar para ti :) A parte boa é que as recordações ficam sempre e ninguem as pode roubar.

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    1. Foi mesmo. E sim, as recordações são um grande conforto que me acompanham :)

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