31 de julho de 2014

Porque quem gosta realmente de ler...

Há aquelas pessoas que nunca têm tempo. Pessoas a quem a vida parece uma correria demasiado rápida e que acabam por nunca desfrutar verdadeiramente de nenhum momento porque estão já preocupadamente concentradas no seguinte. Vivem stressadas, afogueadas, numa roda viva sem fim. E depois há as pessoas que inventam tempo. Que conseguem fazer mil e uma coisas e ainda arranjam tempo para mais uma. Pessoas com uma vida cheia: cheia de filhos, cheia de trabalho, marido, cão e por vezes com estudo pelo meio, que ainda se conseguem dedicar a tanta tanta coisa e para quem o tempo, ou a falta dele, nunca é desculpa. E estas fazem-me crer que as primeiras, as que nunca têm tempo, têm é uma dificuldade imensa em gerir as suas vidas ou então preferem viver assim, sem tempo, mas usam-no como desculpa a toda a hora.
Esta falta de tempo é, na maior parte das vezes, a grande justificação para o facto de não lerem. Já perdi a conta às pessoas que mo disseram, quando falo em livros. "Adoro ler, mas não leio um livro há anos, não tenho tempo". E a mim parece-me responder: "balelas. Se gostas mesmo de ler, o tempo inventa-se". Vejo tanta gente a inventá-lo, não é algo exclusivo só de uns, mas de todos os que realmente gostando de ler, conseguem arranjar tempo para o fazer. Não tenho filhos, bem sei e neste momento da minha vida tenho mais tempo do que o habitual, mas eu já tive empregos complicados. Daqueles das nove da manhã às nove da noite e de ter que chegar a casa, perto das dez e ter que ser eu a fazer o jantar, porque o P. ainda estava para chegar dos seus treinos. Trabalhos que obrigavam a estadias fora de casa, noites mal dormidas em quartos de hotel solitários, perdida por aí em viagens de carro de madrugada. Trabalhos onde o chegar a casa não era sinónimo de estar em casa, senão de corpo físico. Porque me sentava ao computador e continuava a trabalhar pela noite dentro, mal dormindo, mal comendo, mal vivendo. E arranjava tempo para ler. E depois há todas aquelas mulheres fantásticas, com mais do que um filho pequeno, trabalhos exigentes e que estão sempre a falar dos livros que lêem. Por isso, acredito, o tempo inventa-se quando se quer realmente ler. Em vez de se ver televisão, por exemplo. Quando se anda de transportes públicos, ou antes de dormir (um clássico para mim, já que até me ajuda a dormir melhor, um tormento para o P. que há onze anos reclama da luz acessa) e há até quem aproveite para ler no wc. E se largarmos mais os computadores, os tablet's, os telemóveis com acesso à internet sempre a piscar com notificações disto e daquilo...resta-nos tempo para ler. Para os que realmente gostam. Porque o tempo...o tempo inventa-se.

30 de julho de 2014

Livros e mais livros

Ler o Ensaio sobre a Cegueira aos 35 anos de idade é uma vergonha para quem, como eu lê tanto, bem sei. Ainda para mais porque sendo o Saramago um escritor que se ama ou se odeia e não lhe tendo eu nenhum ódio, pelo contrário, não se entende porque só há meia dúzia de meses veio o livro parar cá a casa. Li-o em três dias com aquela vontade receosa de chegar ao fim. Temia um final trágico, para uma história que nos consome lenta mas duramente as ânsias e me deixou a pensar várias vezes "e se". Debatia as possibilidades, a desumanização, o trágico que seria se tal coisa acontecesse, com o P. que, não lendo o livro, não conhecendo as palavras de Saramago, não conseguiu sentir o que eu senti ao vivê-lo. Porque quando leio, vivo o livro. Vejo-o a passar nos olhos da imaginação como se de um filme se tratasse e, quando me marca assim, fica para sempre preso nas teias da memória. Foi sem dúvida o livro que mais me marcou este ano e ficará para sempre na prateleira dos livros da minha vida. Ao lado do meu Gabriel Garcia Marquez.
 
 
E depois de se ler uma história assim, fica o vazio. Um vazio difícil de preencher e olho para o que tenho cá em casa (ainda tenho ali a Caverna, mas não gosto de ler o mesmo autor duas vezes de seguida) e ainda são tantos os livros por ler, felizmente, mas não sei bem por onde (re)começar. Estou particularmente indecisa entre estes dois aqui e a roer-me toda para não ir à livraria mais próxima comprar qualquer coisa de novo. Adoro o Sepúlveda. Acompanho-o há anos e anos. Do Agualusa ainda não li nada, mas tenho este seu Milagrário pessoal cá em casa há já tempo suficiente para ser hora de lhe pegar. Até ao final da manhã decido-me. Se alguém quiser ajudar a escolher, agradeço! 


29 de julho de 2014

Vi, gostei e copiei

Já não sei há quanto tempo, no facebook, alguém mostrou esta ideia do pote das coisas boas que nos acontecem, não sua originalmente, portanto é mais uma daquelas coisas que aparecem e que ninguém sabe já de onde vêem. Então e como funciona o pote? Da maneira mais singela possível: por cada coisa boa, que nos deixa verdadeiramente feliz, ao longo do ano, neste caso 2014, colocamos um papelinho lá dentro com a sua descrição. No final do ano, podemos abrir o pote, ler todos os papelinhos e perceber todos os momentos realmente felizes, todas as coisas boas que nos aconteceram. Valorizamos assim os momentos de felicidade, em vez de ficarmos a fazer contas às desgraças de 2014 e a comer passas desalmadamente, para que 2015 seja diferente.
Só fiz o meu ontem, já a mais de meio do ano, o que me obrigou a reflectir sobre todos os meses para trás. E se tanta coisa menos boa me aconteceu, a verdade é que muitas coisas maravilhosas, daquelas que me deixam realmente feliz e de coração cheio, também aconteceram.
Conto deixá-lo bem cheio de papelinhos coloridos, até ao final do ano.
 
 

28 de julho de 2014

Porque é que eu sou a pessoa mais distraída/desastrada de todo o sempre?

No espaço de menos de uma semana entalei três dedos numa janela, com direito a uma bolha esquisita que depois de transformou numa espécie nódoa negra num deles, enfiei um dedo do pé num armário de chão, que nunca nunca está aberto, mas estava naquele momento exacto e fiz sangue, desloquei um dedo da mão direita, ao bater com a mão no fogão (???) e ainda o tenho inchado, dorido, ligado e sem qualquer utilidade, bati com o ombro direito numa parte de ferro do sofá e ainda me dói se me deito para aquele lado, queimei o braço esquerdo (orgulhava-me de nunca me ter queimado na vida) - uma queimadura ainda grande e feia, entornei um regador cheio de água no chão da cozinha o que, considerando a quase inutilidade da mão direita, permite perceber o drama que foi limpar o chão com a esfregona - às tantas desisti e esperei que o calor fizesse efeito. Perdi os óculos várias e dramáticas vezes (convenço-me sempre que os perdi para todo o sempre),  assim como as chaves do carro, as de casa, tive o ferro ligado horas e horas, tropecei, escorreguei na banheira e deixei cair montes de coisas - dedinhos de manteiga dirão uns, pessoa desastrada, direi eu. Nódoas negras habitam em mim sem qualquer memória de onde e quando, porque é frequente ir contra os móveis - e convenhamos que as idas nocturnas e quase sonâmbulas à casa de banho, em muito devem contribuir. Há mesmo uma zona das minhas pernas que parece já não perder o tom esverdeado, de tão frequente que é bater sempre na cama.
Assim como assim, vou-me deixar estar quietinha hoje, no sossego do lar e dedicada ao estudo que isto anda pior que mau. Queria limpar a casa, mas temo fazer asneira com a mão assim, ou pior, criar mais algum acidente doméstico e sem o P. em casa para me ajudar. Se a coisa continuar, vou à bruxa, que a média de acidentes aumentou substancialmente nos últimos dias e já há quem me diagnostique mau-olhado e outras coisas que tais.

25 de julho de 2014

Conselho!

Vão por mim que não vos falho em nada - não vão nunca escolher os vossos novos óculos com a cara acabadinha de acordar, cabelo despenteado e a sentirem-se para lá de sopeirinhas quando se olham ao espelho, já longe de casa, pois claro. Foi assim que hoje, num registo mais descontraído e de cara completamente lavada,  me enfiei numa óptica e experimentei uns 347 óculos diferentes, achando que nenhum me ficava bem. Pudera, com a cara com que estava, não são uns óculos (que odeio usar, ainda por cima) que iam fazer a diferença. Pior pior é adorar o formato de óculos que se vêem muito por aí (assim tipo olho de gato) e ficarem- me todos mal. Todos. Nem um me ficava ligeiramente maisómenos. Unzinho que fosse. Já em casa tenho umas armações Ray-ban giras giras que o homem mal usou, porque depois de as comprar, foi operado aos olhos e... ficam-me mal. Tenho a cara muito pequena, os olhos muito grandes, a testa saída...isto é uma trabalheira que só visto, palavra de honra. Inveja daquelas mulheres a quem tudo fica bem. Não serei nunca uma dessas que isto é tudo coisa que não vai ao bisturi.
Já a moça que me atendeu e que pacientemente me deixou experimentar quase tudo (quem sabe alguns até repetidos, que às tantas eu já estava perdida no meio de tanta oferta), agradecida por se ter rido das minhas piadas e por ter concordado que os mais giros me ficavam mal, mas mal. Agradeço essa honestidade que a ajudou a escolher uns giros, que me ficam bem e que eram dos mais em conta. Chuac para si!

Mal Nascer

Quando o conheci era um jovem entre tantos outros com que eu me sentava a conversar, a passear e a jogar como tantos outros da aldeia da minha avó. Na altura, chamávamos-lhe Gazela (ainda hoje não sei porquê, ou se soube, perdi a memória nos anos que entretanto passaram) e era já um senhor nas palavras. Inteligente, calmo, perspicaz, atento e um doce de pessoa. Cinco anos mais velho do que eu, naquela idade em que cinco anos fazem a diferença entre quem se acha já senhor adulto e quem se sente ainda uma menina entrada na adolescência e sem grande conhecimento do mundo além Alentejo e Lisboa, tratou-me sempre como se tivesse a mesma idade, a mesma experiência, a mesma capacidade para as palavras. Era encantador de ouvir. De entre todas as pessoas da aldeia que fizeram questão de me abraçar e beijar naquele penoso momento dormente após a missa pela morte da minha querida avó, o Gazela é dos poucos que me lembro, porque não me disse lugares comuns ou palavras feitas, porque disse mais do que palavras. E isso não se esquece, o que vem da sinceridade da alma. E assim é ele. Já não o vejo há anos, mas por vezes conversamos no facebook e os anos e a experiência não mudaram a sua essência.
Nascido numa pequena aldeia, a aldeia do meu coração, é hoje escritor. E é cheia de ânsias e certa de que vou adorar a sua escrita, que vou ler este seu Mal Nascer. Que feliz que fico, Gazela, por este teu sucesso como escritor. E que venha muito mais.
 
 
 
 
 

24 de julho de 2014

Hum...

Será assim muitooooo esquizofrénico mudar o nome de blog? Sempre achei que seria perder parte da identidade, acho até que já o referi a uma blogger que pensou fazê-lo, mas confesso que já há tantos cantinhos disto e daquilo que ando há tempos a dormir sobre o assunto. Que me dizem?

Por vezes...

Por vezes perde-se um amigo. Aqueles "familiares" que temos a felicidade de escolher, que imaginamos na nossa vida para todo o sempre, em todos os momentos. Aqueles a quem ligamos sempre que algo nos acontece, ou enviamos sms, quando não podemos falar mas também não podemos deixar de partilhar algo de incontornável importância, como uma discussão parva com o namorado/marido ou os receios com a saúde do gato. Aqueles de quem esperamos um contacto a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que precise de algo. Aqueles com quem vivemos as alegrias e as tristezas a meias, como se fossem nossas também.
A vida já me tinha ensinado que nem todos os amigos são para sempre. São lições que todos devemos ter, porque aprendemos a reconhecer e a valorizar os que temos verdadeiramente e aprendemos também muito sobre nós, mas custa sempre quando vemos um a sair da nossa vida e quando deixamos de fazer parte da sua vida. Investimos naquela relação. Demos tanto de nós e depois perde-se assim... Mas como em tudo na vida, não é suposto termos ao nosso lado alguém que já não nos faz bem, que nos momentos de tensão nos magoa deliberadamente, que nos tenta deitar abaixo na nossa inabalável fé num futuro feliz e que usa não as nossas fraquezas, o que já seria suficientemente mau, porque todos as temos, mas as dores que temos na nossa vida. Há que saber libertar e deixar ir, para o nosso bem e para o bem da nossa sanidade. Porque não devemos ficar colados que nem lapas a algo que nos dói. Há que seguir em frente e perceber que, no fim, os que estão ao nosso lado sempre, em qualquer circunstância, os que não receiam dizer-nos as verdades, mas que nos amam mesmo com os nossos defeitos, mesmo quando estamos zangados, mesmo quando somos parvos, com todas as nossas características que ninguém tem o direito de querer mudar, são os que realmente importam. São os verdadeiros. E eu prefiro contá-los pelos dedos de uma mão, sabendo exactamente quem e como são, do que ter duas mãos cheias e não ter a quem ligar quando preciso de falar de coisas sérias, ou mesmo quando preciso de partilhar disparates, dúvidas existenciais, ou que me morreu o Gabriel Garcia Marquez, ou que tive um dia para lá de maravilhoso...
É triste quando se perde um amigo. Fica ali uma sensação de orfandade, de vazio, de incompleto, de algo que falta como se tivéssemos um buraco quase negro no coração. Custa. Mas passa. O tempo atenua muito, a paz connosco próprios também, assim como termos perfeitamente resolvidos dentro de nós qualquer sentimento menos bom como mágoa, revolta, incredulidade, angústia, entre tantos outros. Também ajuda termos a certeza de que inegavelmente fizemos tudo por aquela amizade que nos era tão importante, mas que estava na altura de seguir em frente. As lágrimas sem fim já ficaram para trás. Neste momento resta-me desejar um futuro tão feliz quanto desejo para mim. Sou pessoa de ultrapassar as mágoas e de seguir em frente sem pinga de rancor. A vida é mesmo assim. Como referi atrás, são aprendizagens que todos temos que fazer e que nos ensinam também a ser amigos melhores.

22 de julho de 2014

Coisas de beleza

De há uns três anos para cá e em consequência das questões hormonais que a endometriose me traz, comecei a sofrer e bastante de manchas na cara. Quanto mais sol apanho, pior fico, mesmo usando factor 50 e pondo um produto específico da Uriage (também com SPF 50) na zona das manchas. Não deixo de apanhar sol, não deixo de fazer praia, mas chateia-me que com o bronze e com a vida ao ar livre, venham aquelas manchas chatas e inestéticas. Já experimentei cremes de várias marcas, caros, baratos, assim-assim e não há nada que lhes tenha feito sequer cócegas. Chegam os primeiros raios de sol e lá se instalam em mim, sem dó nem piedade. Só adianta ficar enfiada em casa durante o dia, ou então usar burka. Mas como não sou de desistir fácil (e adoro produtos de cosmética) desta vez comprei um produto do qual já li muito bem aqui e ali, que eu ainda não desisti de voltar à pele lisa de sempre. Diz que é uma maravilha, a única coca-cola no deserto das cicatrizes, manchas e estrias e que demorou séculos a chegar ao nosso país (e ainda só o vi na embalagem pequenina).
Ainda só o uso há uma semana, por isso não tenho grande opinião a dar. Estou também a colocar numas estrias chatas, que diz que também serve para as atenuar (muitas muitas dúvidas quanto a isto) e nas várias cicatrizes das várias cirurgias que me deixam o corpo que nem um queijinho suíço. A ver vamos, que sou pouco crente em produtos miraculosos.
Se tiverem algum produtinho maravilha, mezinha, reza e afins que queiram partilhar, façam favor - sou toda "ouvidos"!

21 de julho de 2014

Dias felizes

Depois de uma semana maravilhosa de férias, foi com um sorriso na alma que comecei a arrumar as coisas para o nosso regresso. Somos sempre felizes nos dias sem horários, sem responsabilidades, cheios de sal, de sol e de mar. Saímos todas as noites, passeámos imenso e ainda tínhamos os nossos gatos connosco, pelo que não fiquei com aquela saudades/preocupação típica de quando ficam sozinhos. Fomos às praias que mais gostamos (entre Lagos e Sagres), comemos sempre maravilhosamente bem: muito peixe, muitas saladas e vinho do bom, caminhámos muito e descansámos tanto quanto o corpo nos pediu.
Mas escrevia eu que arrumava as coisas bem disposta e a pensar que amo estar de férias com o P. somos os melhores dos companheiros, mas adoro também a nossa vida de sempre. As nossas rotinas, a nossa casa tão confortavelmente acolhedora, os nossos fins de tarde em que eu o espero com o perfume do café acabado de fazer a espalhar-se pela casa e o pão fresquinho na mesa, os nossos lentos jantares sempre com assunto, sempre com partilhas, os nossos fins de semana preguiçosos, ou cheios de passeios e de namoro. Não me custa regressar e sei que assim é o amor, é sermos felizes todos os dias, mesmo nas rotinas diárias, mesmo com as responsabilidades às costas. É sermos felizes todos os dias do ano, em todos os locais, é aproveitarmos cada momento, com a segura certeza de que temos muito para viver e sorrir. E o melhor de tudo...é saber que ele sente o mesmo.
 
Ficam algumas fotos dos nossos dias felizes:
 
 














 
Também no instagram como @barbaracreal ou no facebook:
 
Uma semana cheia de sorrisos para todos vocês!

Aprender a viver

Fica o texto que escrevi sobre a endometriose na minha vida, para o blog Mil Razões, publicado no último sábado, em colaboração com a Associação Mulherendo. Muito mais haveria a escrever. Como a forma como esta doença afecta social e pessoalmente muitas das mulheres que dela sofrem. Ou a forma como algumas são completamente dilaceradas por cirurgias e fcam fisicamente afectadas para o resto da vida. Mas hoje fica o meu relato e não um relato da realidade vivida por milhões de mulheres por esse mundo fora, porque, no meio desta doença, das cirurgias, das medicações, sou verdadeiramente abençoada com uma família preocupada, com um marido atento e com mais saúde do que seria de esperar:
 
Aos 28 anos tinha a cabeça cheia de sonhos. A viver uma relação profundamente feliz, com uma vida perfeitamente estável, pensar no passo seguinte foi algo que surgiu de forma natural, como consolidação de uma família de dois a querer crescer. Com a tranquilidade que nos caracteriza em todos os momentos, entrámos nesta fase da nossa vida, achávamos nós, preparados para tudo. Dois anos, muitos testes de gravidez, alguns atrasos menstruais (que apenas chegaram para nos criar uma nuvem de esperança que fácil e dolorosamente se desvanecia) e uma cirurgia simples para tirar uns pólipos do endométrio depois, inscrevemo-nos no serviço de fertilidade de um hospital público. E na primeira consulta ouço pela primeira vez a palavra endometriose. Apenas nove meses depois da suposta cirurgia simples e da boca de uma médica que, não obstante o diagnóstico correcto, o desvalorizou e me enviou para um outro hospital, afirmando que teria que ser operada, mas que a operação era complicada e arriscada, porque poderia comprometer o meu intestino. Nem menos, nem mais. No outro hospital, nem uma ecografia, nem um exame, nem uma medida foi tomada, nem mesmo quando fui parar às urgências com a sensação de que todos os meus órgãos pélvicos se contorciam dentro de mim. Confirmaram a endometriose como quem me diz que tenho que aprender a viver com a mesma, porque não iriam fazer nada, como se não houvesse nada a fazer. E eu piorava a cada dia. As dores e hemorragias que, desde sempre me tiravam a força, a energia, a capacidade de viver um dia a dia normal e que me roubavam o sorriso, estavam cada vez mais insuportavelmente fortes. Primeiro eram normais, tinha que as suportar, faziam parte de ser mulher. Depois passaram a ser consequência dos pólipos e com a cirurgia, tudo ficaria bem. Afinal era bem mais do que isso, mas ninguém quis parar para me explicar. 

Aprendi quase tudo o que hoje sei sobre endometriose nos fóruns da internet, nos grupos de mulheres que sofrem do mesmo e nos longos e complexos textos científicos que li. E só aí percebi que tudo o que sempre aceitei como sendo normal: as dores incapacitantes que me obrigavam a largas noites acordada, tão cheia de analgésicos como de lágrimas teimosas, os fluxos anormais que me impediam de sair de casa, de me levantar, de reagir, a dismenorreia, a dispareunia, o cansaço físico, contrário à minha cabeça sempre a mil…era tudo, menos normal. A sociedade formata-nos de tal forma, que não nos apercebemos do perigo iminente em que vivemos. Deixamo-nos ir, tomamos comprimidos e rezamos copiosamente para que passe o mais rapidamente possível. E deixamos que os tentáculos da doença cresçam impiedosamente e nos roubem a esperança, a alegria, o sorriso e tanto tanto mais.

Andei dois anos sem que nada fosse feito, até ter ido parar às mãos experientes de um médico que conhece a doença e os seus perigos. “Tem um tumor grave, tem que ser operada o quanto antes” disse-me, num afago de voz e de mão doce que me apertou o queixo. “Esta menina sofre de dores que ninguém imagina” disse para o meu marido. E logo ali uma lágrima teimosa rolou. Não pelo diagnóstico, não por finalmente ter encontrado um médico que sabia o que fazer, mas por alguém, finalmente, valorizar o que eu estava a sentir e a viver e afirmar que não era “frescura minha”. Não era normal ter dores insuportáveis ou hemorragias descontroladas. Felizmente os dois anos de corredores de hospital sem que nada fosse feito não comprometeram nenhum dos meus órgãos e, consequentemente, a minha qualidade de vida. Depois, uma cirurgia complicada, uma recuperação longa, dolorosa e difícil: seis meses de cuidados, de alertas e de proibições médicas, seguidas à risca por quem queria lutar com todas as forças.

Desde então e chegada aos 35, já lá vão duas cirurgias por conta desta doença que aparece sem se fazer notar, que lenta mas insistentemente vai tomando conta de nós e que se agarra como cola onde pode. Já lá vão, também, três tratamentos de fertilidade sem sucesso. A cada um deles, o ovário esquerdo teimosamente colado ao útero é de acesso quase impossível. Culpa da endometriose. Já lá vão muitas e muitas caixas de analgésicos e de pílulas. Muitas lágrimas, muitas noites mal dormidas. Mas conheço a doença. Identifico-a à légua. Sei o que fazer e como fazer e sou muito bem seguida por uma médica fantástica, ao nível da endometriose. E mesmo quando a cada tratamento de fertilidade me dizem que o meu corpo deveria reagir melhor, que deveria produzir mais, que fui “miserável” (sim, já o ouvi da boca de uma médica que me acompanha na fertilidade) eu reforço que, considerando a doença, acho que o meu corpo se tem portado maravilhosamente bem. Estou inteira, cheia de fé e de sonhos ainda, como quando aos 28 tomei a decisão de alargar a família.

Hoje posso dizer que não aprendi a sobreviver com a endometriose. Isso jamais seria suficiente para mim. Não me subjugo a algo sem tentar libertar-me das suas amarras. Vivo alerta, mas aprendi a viver. Venço cada etapa desta doença que poderá impedir-me de ser mãe biológica, que poderá levar-me novamente a um quarto de hospital já tão conhecido, que me fará sentir os mesmos receios de sempre, mas que não me roubará o sorriso, nem a vontade de continuar a ser feliz.

11 de julho de 2014

Porque adiamos vezes demais aquilo que queremos realmente fazer...

Andei anos da minha vida a dizer que queria fazer voluntariado. E depois vieram as desculpas. Que não tinha tempo, que durante a semana não dava, que queria dar 100% de mim e receava não conseguir. Que para o ano é que era, ou quando o P. jogava aos domingos, mas depois os domingos eram o único dia livre para as minhas limpezas e patati-patata... Queria, queria, queria, mas arranjava desculpas/receios e fui sempre contornando e adiando, como muitos de nós fazemos com os nossos sonhos, que ficam para depois das nossas responsabilidades, que nem sempre nos fazem felizes. Depois um dia, quis o destino (esse grande maroto, que adora trocar-nos as voltas e dar-nos as oportunidades que tanto queremos) que eu tivesse um horário tremendamente flexível, com algumas manhãs livres e a possibilidade de tardes também. Contactei, por e-mail, uma entidade da zona que tem vários organismos: escolas, associações sociais, lares de idosos. Enviei a candidatura e assinalei como preferência trabalhar com crianças. Depois os jovens. Tinha ainda a secreta esperança de vir também a fazer trabalho voluntário com animais, num canil ou veterinário (ainda tenho). Nunca pensei em trabalhar com idosos. Não tinha qualquer opinião sobre trabalhar com os mesmos, mas não eram a minha prioridade. Adoro crianças, tenho um jeito inato para elas e era o que preferia, ponto final.
Quis então o destino (esse grande maroto) que fosse chamada para o lar/centro de dia desse organismo. Fui para conhecer o espaço, conhecer as pessoas e conversar com a responsável pelos voluntariados. Nada de descartar uma hipótese antes de saber o que poderia vir a fazer com eles. E já não saí de lá. Vão quase dois anos de idas semanais (desde que estou mais disponível, duas a três vezes). Tenho feito coisas distintas, como técnicas de relaxamento, clube de leitura e teatro. Este último, o que me dá mais trabalho (porque idosos ou pessoas com incapacidade não decoram falas ou cenas), mas mais retorno em amor e alegria pura. Já não imagino a minha vida sem eles. Sem aqueles sorrisos felizes que me recebem, sem os seus beijos repenicados, sem as suas lágrimas que me magoam na alma, mas que me enchem o coração, pelo carinho que aceitam, sem os seus abraços fortes, como se não houvesse amanhã.
Não são só idosos. Há também pessoas mais jovens com trissomia 21, com incapacidades físicas graves, ou com outro tipo de incapacidade. Uma delas, a C., é a menina dos meus olhos, mesmo sendo mais velha do que eu. É o meu anjo sem asas, sempre bem-disposta, sempre feliz, sempre a querer saber de mim, sempre a despedir-se com um beijo sincero. Mesmo com o corpo magoado, mesmo com as dores que não a permitem andar sozinha, está sempre a sorrir. E temos o Sr. J. um doce de poeta, sempre pronto para a gargalhada e para a declamação dramática. A D.ª T., uma senhora tão maltratada pela a vida, dona de uma disposição maravilhosa, que adoptou como neto o F. o mais jovem, com trissomia 21. A D.ª A., invisual, guerreira, de temperamento forte e língua afiadamente honesta. A D.ª H., com as suas mãos sempre a tremer, mas o riso sempre pronto a espreitar. E tantos tantos outros.  Cada um com as suas características marcadas, com as suas necessidades, com a sua história.
Hoje escrevo sobre eles porque hoje estou de coração tão cheio que parece uma bomba relógio prestes a rebentar. Hoje foi a estreia da nossa peça, a peça de "fim de ano". E a felicidade em todos os olhos e em todos os sorrisos de quem entrou na peça, o reconhecimento, o agradecimento e a felicidade de todos os que assistiam, deixaram-me de lágrimas nos olhos e a certeza de que estou no sítio mais certo para mim. E o que mais me tocou foi um senhor de olhos tristes, que vejo sempre que lá vou, mas com quem nunca tinha falado e que, na sua cadeira de rodas me procurou, agarrou na minha mão e, com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, me agradeceu por levar tanta alegria, tanta vontade, tanta dedicação. Só por aquele senhor, valeu tudo a pena. Por todos eles então...
Sinto-me verdadeiramente abençoada por estar num sítio assim, onde o que dou, recebo em troca, porque este coração cheio, tão cheio prestes a rebentar, não se consegue só porque sim, mas quando se faz o que se ama. Como disse um dia, ganhei uma mão cheia de avós, de primos, de amigos para a vida. Sou feliz.
 
Eu, de varina, com direito a pregão, com o Sr. J., o poeta!

10 de julho de 2014

Já ando há vinte anos nisto

Trabalho desde os 15 anos. Trabalhos simples, em negócios de família (maioritariamente numa papelaria grande), atrás de um balcão a sorrir e a atender clientes. Tinha horários chatos que cumpria religiosamente (sextas-feiras a sair às 22h30, por exemplo) e responsabilidades que assumia que nem gente grande. Tinha jeito para o atendimento, as pessoas gostavam de mim, excepto talvez os senhores que iam buscar os jornais de conteúdo duvidoso que estavam guardados no seu nome (morriam de vergonha, mas para mim era só mais um jornal cujo nome óbvio dizia tudo). Era tímida, mas educada, fazia bem contas de cabeça e não me queixava de, ao fim do dia, pegar na vassoura, no balde e na esfregona e lavar os cheiros, as nódoas e os resquícios do dia. Ainda hoje reconheço o cheiro de loja que vende tabaco, misturado com o cheiro tão característico dos jornais, das revistas e até das pessoas. Na altura o totoloto e o totobola não eram como agora - tinha que se separar em três: um papel para um lado, o químico para outro e um papel para o cliente. Os dedos ficavam cansados, secos e escuros por conta do químico que custava a lavar. As contas eram de cabeça, não havia cá máquina a dizer-nos qual o valor que o cliente estava a apostar. Na sua maioria apostavam mais do que o que lhes ficava no bolso para sobreviverem ao mês. Com as raspadinhas era outra loucura: senhoras idosas, que recusavam pastilhas de 5 escudos aos netos, dizendo não ter dinheiro, mas que o gastavam nas raspadinhas que raspavam tão sôfrega e cegamente que, na maioria das vezes, mesmo tendo prémio, não o viam. Habituaram-se a pedir-me para confirmar os prémios, coisa que eu fazia tranquilamente, ao contrário de outros empregados, que tinham mais que fazer.
Trabalhei ainda num centro de cópias, também da família e numa pastelaria que a minha mãe teve durante uns tempos. Pelo meio fiz entrega de bolos em Almada e Lisboa, assim que tive o meu primeiro carro. Enquanto as minhas amigas iam para a praia, para concertos, ou sair, tinham motas e roupas giras, eu trabalhava, andava de autocarro (até aos 19 anos) e comprava roupa na feira semanal, somente quando precisava mesmo de roupa e a que o meu irmão deixava para trás não se adequava a mim. Não ganhava grande coisa e o que ganhava não era para roupa, concertos ou bebidas, como gostaria. Era para não ter que pedir dinheiro à minha mãe para as coisas do dia a dia: passe, fotocópias, livros, almoços na escola e, mais tarde, para a gasolina no carro. Poderia dizer que a minha adolescência foi glamourosa, cheia de experiências do outro mundo, viagens e afins, mas não. Foi de trabalho árduo, responsabilidades de uma menina que queria não ser um fardo para uma mãe que tinha que contar o dinheirinho para não ter uma única dívida na sua vida e para que não nos faltasse nada. E não tem dívidas e não nos faltou nada.
Trabalhei durante todo o secundário e universidade. Pelo meio ainda era eu quem levava a minha irmã à escola. Acordava-a de manhã, lavava-a, vestia-a, dava-lhe o pequeno-almoço e deixava-a nas mãos da educadora, numa sala cheia de meninos barulhentos. Chegava a vir da casa de colegas da faculdade, onde tinha estado a fazer trabalhos chatos a noite toda, apenas para ir tratar da minha irmã e voltar logo de seguida, com 5 cafés a trabalhar cá dentro, para me permitir manter os olhos bem abertos e o cérebro lúcido.
Quando estava no último ano de faculdade iniciei o meu estágio curricular. Aos fins de semana continuava a trabalhar com a família. Foram cerca de 5 meses a pagar para ir trabalhar. Saía de casa cedo, bem cedo para ir para o centro de Lisboa, para uma instituição na área da educação e formação, onde fiz diversas coisas, onde aprendi imenso e onde trabalhei duro. Onde conheci pessoas terríveis e pessoas maravilhosas. Não recebi um tostão em troca, mas os estágios eram mesmo assim. O pagamento era a experiência, era a entrada no mercado de trabalho, era a aprendizagem que não se faz nos livros da faculdade e foi, acima de tudo, o reconhecimento que me permitiu ter um convite para lá ficar. E fiquei. Cinco anos da minha vida num dos trabalhos de que mais gostei, numa equipa espectacular e que ainda veio com brinde: foi onde conheci o P. E desde aí não mais parei. Fui mudando de trabalho, quase todos na área da formação (um deles na área dos recursos humanos). Pelo meio um mestrado em ciências da educação, para me complementar já que, como psicóloga sou da área social e das organizações.
Quando me vi desempregada, há pouco mais de um ano atrás, arregacei as mangas e criei o meu próprio local de trabalho. Foi um ano cheio de aprendizagens e de experiências novas, mas quando saí, saí por sentir que não era ali que me via durante o resto da minha vida e, sendo nós duas pessoas à frente do negócio, com ideias e objectivos diferentes, uma de nós tinha que ceder e fui eu a fazê-lo. Aos 35 anos de idade, importa encontrar o rumo certo, porque se torna cada vez mais difícil sermos viáveis no mercado de trabalho.
Neste momento, à distância de 20 anos do meu primeiro trabalho, formalmente desempregada, tenho um projecto em mãos. Um projecto que me está a dar um prazer tremendo e que é mesmo a minha cara. Mas não sei quando terá retorno e sequer se o terá (acredito que sim, senão não me faria sentido apostar nisto). Tenho também uma proposta para uma empresa que está a ser criada, mas cujos timmings são ainda imprevisíveis. Será também algo que irei gostar porque alia a formação à área social, que eu tanto amo. Mas, como os imprevistos acontecem e eu não posso ficar sem chão, continuo atenta ao mercado de trabalho. Vejo anúncios com regularidade e respondo aos que me parecem ter tudo a ver comigo e para os quais cumpro com os requisitos - poucos, tão poucos, porque na sua maioria pedem pessoas para estágio profissional, abaixo dos 35 anos ou que saibam falar 23 línguas e fazer o pino debaixo de água. E isto aflige-me. Não por mim. Não só por mim, mas pela quantidade de pessoas que conheço que estão como eu, ou pior, sem qualquer perspectiva segura em vista, sem nenhum projecto viável em mãos, vendo as ténues esperanças a fugirem pelos dedos.  Outros há que pedem pessoas com as maiores qualificações e experiência, para salários absolutamente ridículos e que, feitos os descontos e comprado o passe, quase nada fica.
Um dia de cada vez. Não estou desesperada e a pontos de aceitar a primeira coisa que me aparecer à frente. Mas se esse dia chegar, não terei problemas em fazer algo que não é para o que estudei ou trabalhei. E percebo perfeitamente as pessoas que, ao longo dos anos ouvi a dizerem que só precisavam de uma oportunidade. Tenho 35 mas a energia de uma gaiata de 24. Sou super empenhada, adoro trabalhar em equipa, sou responsável e sou das que veste implacavelmente a camisola. Mas não é num CV, numa candidatura on-line ou numa carta de apresentação que isso se vê.
Resta-me continuar a procurar, esperando que o que tenho em mãos se conretize como desejo. Mantendo a fé num futuro equilibrado e acreditando. Ficar em casa, desesperada, a sofrer por antecipação por algo que pode nem vir a concretizar-se é que não é mesmo a minha cara.

9 de julho de 2014

Foram-se 7 Kg, quase 8!

Nunca gostei de rebuçados, gomas, bolos folhados ou cheios de chantilly. Não gosto de batatas fritas como acompanhamento, de comida frita no geral (nem tenho fritadeira em casa), nem de refrigerantes ou supostos chás gelados à partida saudáveis, mas carregados de açúcar e outras coisas. Não sou a maior apreciadora de gelados, talvez, na loucura, coma uns três por Verão e só se for magnum caramelo ou corneto de morango. Como, talvez, um prato de comida pesada por ano, para não fugir ao hábito familiar dos almoços de Inverno, ao calor da lareira. Não como carne. Não bebo leite de vaca (salvos raras exepcções, não sou purista de nada), que substituo por leite de arroz sempre que o preço o permite. Não como manteiga e só como peixe uma a duas vezes por semana, às vezes menos. Não passo fome. Nunca. Adoro água. É a minha bebida favorita de sempre e anda sempre comigo em garrafas ou garrafinhas. Não sou capaz de nada se não tiver água comigo. Sempre adorei sopas cremosas de legumes, que faço maravilhosamente bem. Sou fã de saladas e tenho no agrião o meu legume favorito. Sou capaz de o comer a todas as refeições. Logo a seguir vem o alho francês e depois os bróculos. Sou preguiçosa com a fruta, por isso tenho sempre fruta fácil de comer em casa, como bananas ou Kiwis e maracujás, que corto ao meio e como à colherada. No Verão, as uvas, as cerejas e as meloas fazem as minhas delícias. Faço todos os dias refeições vegetarianas acompanhadas de arroz ou massa integral ou de quinoa biológica. Como pão regularmente, sempre com queijo magro, mas não todos os dias, porque nem sempre me apetece. Como chocolate negro regularmente, porque adoro. E um ou dois quadrados enchem-me as ânsias por doce que por vezes tenho. Bebo vinho aos fins de semana e não me privo das refeições um pouco mais calóricas que o P. tão deliciosamente faz.
Perdi 7 kg, a caminhar para os 8, de Setembro para cá. Calhando, ainda se vão mais umas gramas, que eu cá gosto de números redondinhos. E estes 7, quase 8 kg não se foram com dietas malucas. Com regras douradas ou proibições. Com livros e sites de dietas da moda. Não. Estes 7, quase 8 kg, foram-se pegando naquilo que eu, Bê, mais gosto e que, sendo saudável, tenho sempre em casa. E eliminando aquilo que, não sendo saudável, mais valia não ter nunca em casa, porque senão era certo que comia, como manteiga, bolachas, chocolates que não o negro, qualquer tipo de comida processada, entre muitas outras coisas. Não sofro e não faço restrições extremistas: se o jantar de família for um belo arroz de polvo, com arroz que não o integral e acompanhado de vinho branco ou verde, claro que como. Como bolo de chocolate quando vou a casa da minha mãe porque é só o melhor do mundo. E como tostas com paté de salmão que o meu pai compra para mim, porque sabe que não como os de carne, sempre que vou a casa dele. Porque com sofrimento não vale a pena. Estar a comer um aipo e a pensar na sobremesa calórica que está no frigorífico a solidifcar é dos piores inimigos de qualquer dieta ou cuidado alimentar. Porque o corpo agradece, mas a cabeça não. E para mim as coisas só fazem sentido se forem como um todo: corpo, cabeça e mente saudável e feliz.
Assim, sem dietas loucas, restrições nazis ou qualquer tipo de sofrimento ou de fomes, cá estou com menos 7 Kg, quase menos 8 que em Setembro de 2013. Não é muito, mas era o que eu precisava de perder, depois de operações e tratamentos e uma fase menos cuidada da minha vida, por conta de operações e tratamentos e tratamentos e operações. Sinto-me óptima. E feliz. Aos quase 36 anos de idade, há algum tempo que não gostava tanto do meu corpo como agora. E quanto mais quilos fui perdendo, maior foi o compromisso interior de eliminar tudo o que não me faz nem bem nem falta.  Torna-se, acima de tudo, uma forma de vida. Mais saudável, mais elegante, mais feliz.

8 de julho de 2014

Sul

Quase, quase, quase prestes a rumar a sul com o meu amor e os nossos amigos de 4 patas, para um local onde somos sempre muitos felizes. Serão dias de muito namoro, comidinha e bebida boa, puro descanso alternado com algum exercício físico (nadar, correr e jogar volei) e sem grandes responsabilidades. Na mala, sandálias rasas, vestidos e biquinis e dois ou três livros que me acompanham durante os longos, mas mesmo longos banhos de mar dele. A mala do P., feita por mim, que o homem acha sempre que dois calções, duas t-shirts e uns calções de banho chegam.
Até irmos, tenho ainda uma semana cheia - estou a ultimar a peça de teatro dos meus queridos velhotes, que decorrerá na sexta-feira. São roupas, adereços, falas, deixas, distracções e egos para gerir. Será uma semana a terminar em grande e outra, a começar da melhor forma!

4 de julho de 2014

Diário de uma ida aos saldos

Doce é este tempo em que, o Verão ainda só começou no calendário e já toda a roupa das lojas se encontra a preço de saldo. Dei conta disso, na semana passada, completamente por acaso e lá fui eu dar um olhinho. Na verdade, eu detesto a época dos saldos - já escrevi sobre isso - não pelos preços, mas pela confusão feirante, pela desarrumação tresloucada, pelas filas impacientes para experimentar, para pagar, para ver e pela ausência dos tamanhos que normalmente uso, dando lugar àquela frustração de quem encontrou uma peça pela qual se apaixonou, a um preço para lá de espectacular, mas que só existe em XS ou XL, ou então até existe em M, mas já foi tão mexido e remexido que está carregadinho de base ou com defeitos no tecido. Mas quis o destino que eu fosse logo no primeiro dia de todos, pela fresquinha, estando as lojas ainda bem apetrechadas, organizadas, com todos os tamanhos bem alinhadinhos e completamente vazias de (mulheres stressadas) pessoas. Maravilha! Vim de lá carregada para o Verão? Nem pensar. A minha veia consumista passada deu lugar a uma mulher com bom-senso, que sabe que no seu guarda-roupa (quem dera poder chamar-lhe closet) existe roupa para usar uns dois meses seguidos, sem repetir uma única peça. E cheguei à conclusão que, quanto mais tenho, maior é a dificuldade em saber o que escolher, dando lugar a minutos e minutos de indecisão logo pela manhã e a sensação de que não tenho nada para vestir - sensação que todas as mulheres conhecem muito bem. Assim, comprei apenas duas peças, com a certeza de que as vou usar bastante e cheguei a casa e escolhi tudo o que no Verão passado ou não usei, ou usei duas ou três vezes. Considero-as peças desnecessárias e que terão muito mais uso por quem mais pode precisar. Reduzi drasticamente, enchi sacos e sacos, organizei e agora é tão mais fácil saber o que vestir.
As peças:
 Vestido da H&M, por apenas 10€. No Verão, deixo as calças de lado e os vestidos são as minha peça de eleição. Curtos, compridos, lisos ou estampados. Adoro.

 
Blusa da Mango, 11.99€. Tenho uma pancada auto-diagnosticada por branco. É a cor dominante no meu guarda-roupa e amei o contraste do branco desta blusa com a corda castanha, além de que o tecido é fantástico, fluido e elegante.
 
Está feito o gasto. Não há nada que precise, por isso, agora é tempo de esperar por boas promoções nos livros. Que esses nunca são demais!

1 de julho de 2014

Oh, decisions, decisions...

Aquele momento em que terminamos um livro e trememos de alegria expectante, perante a possibilidade de escolher o próximo.  Nestes momentos sou como uma criança a quem acenam com um gigante chupa-chupa colorido. Embora leia bastante (entre dois a três livros por mês, dependendo do tamanho, chego aos quatro) tenho sempre mais do que o que consigo comprar - sou viciada em comprar livros (ando aqui a roer-me toda para não me adiantar na compra do último do MEC, já que tenho estes todos e mais uns quantos para ler).  
 
Depois de ler um do Ken Follet, levezinho, que se lê bem, mas que não pertence, de longe, ao seu top 5, o escolhido foi o último do Valter Hugo Mãe, que me ficou no coração depois do seu fabuloso "O filho de mil homens".
 
Ainda só li cerca de 30 páginas e já estou agarrada. Sei que o vou terminar num instante. E volta esta sensação de ter tanto por onde escolher! E de querer comprar outros tantos, para sentir esta coisa confortável de ter leitura para um bom par de anos.