10 de julho de 2014

Já ando há vinte anos nisto

Trabalho desde os 15 anos. Trabalhos simples, em negócios de família (maioritariamente numa papelaria grande), atrás de um balcão a sorrir e a atender clientes. Tinha horários chatos que cumpria religiosamente (sextas-feiras a sair às 22h30, por exemplo) e responsabilidades que assumia que nem gente grande. Tinha jeito para o atendimento, as pessoas gostavam de mim, excepto talvez os senhores que iam buscar os jornais de conteúdo duvidoso que estavam guardados no seu nome (morriam de vergonha, mas para mim era só mais um jornal cujo nome óbvio dizia tudo). Era tímida, mas educada, fazia bem contas de cabeça e não me queixava de, ao fim do dia, pegar na vassoura, no balde e na esfregona e lavar os cheiros, as nódoas e os resquícios do dia. Ainda hoje reconheço o cheiro de loja que vende tabaco, misturado com o cheiro tão característico dos jornais, das revistas e até das pessoas. Na altura o totoloto e o totobola não eram como agora - tinha que se separar em três: um papel para um lado, o químico para outro e um papel para o cliente. Os dedos ficavam cansados, secos e escuros por conta do químico que custava a lavar. As contas eram de cabeça, não havia cá máquina a dizer-nos qual o valor que o cliente estava a apostar. Na sua maioria apostavam mais do que o que lhes ficava no bolso para sobreviverem ao mês. Com as raspadinhas era outra loucura: senhoras idosas, que recusavam pastilhas de 5 escudos aos netos, dizendo não ter dinheiro, mas que o gastavam nas raspadinhas que raspavam tão sôfrega e cegamente que, na maioria das vezes, mesmo tendo prémio, não o viam. Habituaram-se a pedir-me para confirmar os prémios, coisa que eu fazia tranquilamente, ao contrário de outros empregados, que tinham mais que fazer.
Trabalhei ainda num centro de cópias, também da família e numa pastelaria que a minha mãe teve durante uns tempos. Pelo meio fiz entrega de bolos em Almada e Lisboa, assim que tive o meu primeiro carro. Enquanto as minhas amigas iam para a praia, para concertos, ou sair, tinham motas e roupas giras, eu trabalhava, andava de autocarro (até aos 19 anos) e comprava roupa na feira semanal, somente quando precisava mesmo de roupa e a que o meu irmão deixava para trás não se adequava a mim. Não ganhava grande coisa e o que ganhava não era para roupa, concertos ou bebidas, como gostaria. Era para não ter que pedir dinheiro à minha mãe para as coisas do dia a dia: passe, fotocópias, livros, almoços na escola e, mais tarde, para a gasolina no carro. Poderia dizer que a minha adolescência foi glamourosa, cheia de experiências do outro mundo, viagens e afins, mas não. Foi de trabalho árduo, responsabilidades de uma menina que queria não ser um fardo para uma mãe que tinha que contar o dinheirinho para não ter uma única dívida na sua vida e para que não nos faltasse nada. E não tem dívidas e não nos faltou nada.
Trabalhei durante todo o secundário e universidade. Pelo meio ainda era eu quem levava a minha irmã à escola. Acordava-a de manhã, lavava-a, vestia-a, dava-lhe o pequeno-almoço e deixava-a nas mãos da educadora, numa sala cheia de meninos barulhentos. Chegava a vir da casa de colegas da faculdade, onde tinha estado a fazer trabalhos chatos a noite toda, apenas para ir tratar da minha irmã e voltar logo de seguida, com 5 cafés a trabalhar cá dentro, para me permitir manter os olhos bem abertos e o cérebro lúcido.
Quando estava no último ano de faculdade iniciei o meu estágio curricular. Aos fins de semana continuava a trabalhar com a família. Foram cerca de 5 meses a pagar para ir trabalhar. Saía de casa cedo, bem cedo para ir para o centro de Lisboa, para uma instituição na área da educação e formação, onde fiz diversas coisas, onde aprendi imenso e onde trabalhei duro. Onde conheci pessoas terríveis e pessoas maravilhosas. Não recebi um tostão em troca, mas os estágios eram mesmo assim. O pagamento era a experiência, era a entrada no mercado de trabalho, era a aprendizagem que não se faz nos livros da faculdade e foi, acima de tudo, o reconhecimento que me permitiu ter um convite para lá ficar. E fiquei. Cinco anos da minha vida num dos trabalhos de que mais gostei, numa equipa espectacular e que ainda veio com brinde: foi onde conheci o P. E desde aí não mais parei. Fui mudando de trabalho, quase todos na área da formação (um deles na área dos recursos humanos). Pelo meio um mestrado em ciências da educação, para me complementar já que, como psicóloga sou da área social e das organizações.
Quando me vi desempregada, há pouco mais de um ano atrás, arregacei as mangas e criei o meu próprio local de trabalho. Foi um ano cheio de aprendizagens e de experiências novas, mas quando saí, saí por sentir que não era ali que me via durante o resto da minha vida e, sendo nós duas pessoas à frente do negócio, com ideias e objectivos diferentes, uma de nós tinha que ceder e fui eu a fazê-lo. Aos 35 anos de idade, importa encontrar o rumo certo, porque se torna cada vez mais difícil sermos viáveis no mercado de trabalho.
Neste momento, à distância de 20 anos do meu primeiro trabalho, formalmente desempregada, tenho um projecto em mãos. Um projecto que me está a dar um prazer tremendo e que é mesmo a minha cara. Mas não sei quando terá retorno e sequer se o terá (acredito que sim, senão não me faria sentido apostar nisto). Tenho também uma proposta para uma empresa que está a ser criada, mas cujos timmings são ainda imprevisíveis. Será também algo que irei gostar porque alia a formação à área social, que eu tanto amo. Mas, como os imprevistos acontecem e eu não posso ficar sem chão, continuo atenta ao mercado de trabalho. Vejo anúncios com regularidade e respondo aos que me parecem ter tudo a ver comigo e para os quais cumpro com os requisitos - poucos, tão poucos, porque na sua maioria pedem pessoas para estágio profissional, abaixo dos 35 anos ou que saibam falar 23 línguas e fazer o pino debaixo de água. E isto aflige-me. Não por mim. Não só por mim, mas pela quantidade de pessoas que conheço que estão como eu, ou pior, sem qualquer perspectiva segura em vista, sem nenhum projecto viável em mãos, vendo as ténues esperanças a fugirem pelos dedos.  Outros há que pedem pessoas com as maiores qualificações e experiência, para salários absolutamente ridículos e que, feitos os descontos e comprado o passe, quase nada fica.
Um dia de cada vez. Não estou desesperada e a pontos de aceitar a primeira coisa que me aparecer à frente. Mas se esse dia chegar, não terei problemas em fazer algo que não é para o que estudei ou trabalhei. E percebo perfeitamente as pessoas que, ao longo dos anos ouvi a dizerem que só precisavam de uma oportunidade. Tenho 35 mas a energia de uma gaiata de 24. Sou super empenhada, adoro trabalhar em equipa, sou responsável e sou das que veste implacavelmente a camisola. Mas não é num CV, numa candidatura on-line ou numa carta de apresentação que isso se vê.
Resta-me continuar a procurar, esperando que o que tenho em mãos se conretize como desejo. Mantendo a fé num futuro equilibrado e acreditando. Ficar em casa, desesperada, a sofrer por antecipação por algo que pode nem vir a concretizar-se é que não é mesmo a minha cara.

20 comentários:

  1. Adorei o teu texto e revejo-me nele. Sou mais nova, não tenho a tua experiência e também me encontro desempregada, no entanto, estou a fazer uns trabalhos como freelancer na área da Higiene e Segurança do Trabalho. Não me dá segurança nenhuma para o futuro mas todos os dias acordo com um sorriso na cara e com a determinação e a esperança que vou conseguir arranjar algo melhor e sem ser nestas condições. E concordo plenamente quando dizes que não é num cv ou numa carta de apresentação que se fica a conhecer a pessoa.

    Um beijinho grande *

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    1. Obrigada pela tua partilha. E parabéns pela garra e pela vontade - é o principal para se alcançar o que realmente se quer.

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  2. Que texto tão genuíno. Espero que consigas seguir os teus sonhos e que ainda muitas coisas boas e felizes te aconteçam.
    Kiss kiss
    Maria

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    1. Obrigada pelas palavras Maria. tenho a certeza que sim, que eu sou uma eterna optimista.

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  3. Trabalhar com a família não é trabalho...e com 35 anos, boa sorte, que não vai ser facil

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    1. Depende da família caro anónimo e acredite que trabalhei bem a sério. Quanto à idade, isso são preocupações minhas.

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  4. Tenho 29 anos. Trabalhei também, durante grande parte do meu curto percurso profissional, ligada à formação e à área social. Em agosto de 2012, fiquei desempregada. Desde então, tenho aproveitado as oportunidades que o Centro de Emprego tem, através das suas medidas de "apoio" ao emprego. Já fiz um CEI e estou agora a terminar um estágio. A um mês do fim, não vejo grandes possibilidades de continuar, uma vez que me encontro numa autarquia (e todos sabemos como funcionam..). Talvez consiga outro CEI. Estabilidade não existe!
    No entanto, tenho um projecto paralelo, que desenvolvi com a minha melhor amiga. Cada vez mais me convenço que o meu futuro será por aí. Todos à minha volta dizem o mesmo e isso dá-me força para investir cada vez mais nesse sonho. :)
    Mas...não vou desistir da formação e da área social! :) Tenho alguns trunfos na manga! ;)

    Boa sorte! :) Que todos os teus desejos se realizem*

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    1. Acho que fazes muito bem em conciliar as duas coisas - talvez tenha sido o meu erro, enquanto estive a gerir o meu negócio, o de ter posto de parte a minha experiência até ao momento.

      Muita muita muita sorte para ti!

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  5. És uma guerreira. Batalhadora. Arregaças as mangas!

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    1. Isso sem dúvida minha querida. Já as arregaço há tantos anos :)

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  6. Desejo-te a maior sorte do mundo. Que tudo corra pelo melhor. Mereces.

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  7. Tenho seguido a tua história e paralelamente vivido uma semelhante. Sou fisioterapeuta e tenho 32 anos, trabalho há praticamente 9 numa instituição para idosos em que vesti a camisola e aprendi imenso sobre a minha profissão e sobre a vida em geral (ainda ontem uma das "minhas" senhoras me ensinou o truque para um perfeito chá de alecrim!). Há mais de um ano que o meu serviço está para terminar, sempre com uma data diferente. As condições também mudaram, em todos os sentidos...
    Revi as minhas opções e resolvi fazer de uma situação que parecia o pesadelo da mulher moderna num desafio. Apostei em diferentes planos, pois gosto de ter sempre opções de escolha, desde criar uma empresa minha, a dar formações, etc... No meio de tudo isto a minha visão da vida simplesmente mudou! Deixei de ter uns óculos de visão negativa e sai do mecanismo da autocomiseração. Comecei a dar valor ao que tinha como seguro, tornei-me mais poupada (leia-se menos consumista!) e simplesmente mais positiva!
    No meio disto tudo entrei em Medicina, um dos meus planos! Gosto muito do que faço, não vou deixar de ser fisioterapeuta, penso que isso só me tornará uma melhor médica. E deste modo lá embarco numa nova aventura, num novo desafio e crescimento! A idade? Vamos trabalhar até aos 70, os 30 são apenas o inicio! Tenho menos memória e resistência, mas muito mais maturidade e conhecimentos.
    Tenho ainda de agradecer-te alguns posts que colocaste que foram inspiradores pela forma construtiva com que tens vivido o teu desemprego. Foram palavras que vieram na altura certa!

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    1. Temos mesmo tantos pontos em comum! Mas entrar em medicina? Caramba, que maravilha e que sonho maravilhoso. Desejo-te toda a sorte do mundo e toda a felicidade também.

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  8. Como mãe, ao ler o que fizeste pela tua irmã, ate me vieram as lágrimas aos olhos. Bem hajas. Beijinho , Sofia

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    1. É a menina dos meus olhos, mesmo tendo hoje 19 anos. Faria tudo novamente, mesmo não tendo sido sempre compreendida pelas minhas colegas.

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  9. Vais lá chegar Bêzinha ♥ és uma lutadora :)

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  10. Pelo que li, concluo que deves ser uma grande mulher :) Daquelas com M grande, sabes?
    Se ha coisa que aprendi ultimamente é nós é que escolhemos aquilo que queremos ser e tu fizeste escolhas sabias ao longo da tua vida :)

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    1. Obrigada :) - acho que ainda tenho muito a aprender, mas faz parte da evolução: escolher, cair, aprender, levantar...

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