24 de julho de 2014

Por vezes...

Por vezes perde-se um amigo. Aqueles "familiares" que temos a felicidade de escolher, que imaginamos na nossa vida para todo o sempre, em todos os momentos. Aqueles a quem ligamos sempre que algo nos acontece, ou enviamos sms, quando não podemos falar mas também não podemos deixar de partilhar algo de incontornável importância, como uma discussão parva com o namorado/marido ou os receios com a saúde do gato. Aqueles de quem esperamos um contacto a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que precise de algo. Aqueles com quem vivemos as alegrias e as tristezas a meias, como se fossem nossas também.
A vida já me tinha ensinado que nem todos os amigos são para sempre. São lições que todos devemos ter, porque aprendemos a reconhecer e a valorizar os que temos verdadeiramente e aprendemos também muito sobre nós, mas custa sempre quando vemos um a sair da nossa vida e quando deixamos de fazer parte da sua vida. Investimos naquela relação. Demos tanto de nós e depois perde-se assim... Mas como em tudo na vida, não é suposto termos ao nosso lado alguém que já não nos faz bem, que nos momentos de tensão nos magoa deliberadamente, que nos tenta deitar abaixo na nossa inabalável fé num futuro feliz e que usa não as nossas fraquezas, o que já seria suficientemente mau, porque todos as temos, mas as dores que temos na nossa vida. Há que saber libertar e deixar ir, para o nosso bem e para o bem da nossa sanidade. Porque não devemos ficar colados que nem lapas a algo que nos dói. Há que seguir em frente e perceber que, no fim, os que estão ao nosso lado sempre, em qualquer circunstância, os que não receiam dizer-nos as verdades, mas que nos amam mesmo com os nossos defeitos, mesmo quando estamos zangados, mesmo quando somos parvos, com todas as nossas características que ninguém tem o direito de querer mudar, são os que realmente importam. São os verdadeiros. E eu prefiro contá-los pelos dedos de uma mão, sabendo exactamente quem e como são, do que ter duas mãos cheias e não ter a quem ligar quando preciso de falar de coisas sérias, ou mesmo quando preciso de partilhar disparates, dúvidas existenciais, ou que me morreu o Gabriel Garcia Marquez, ou que tive um dia para lá de maravilhoso...
É triste quando se perde um amigo. Fica ali uma sensação de orfandade, de vazio, de incompleto, de algo que falta como se tivéssemos um buraco quase negro no coração. Custa. Mas passa. O tempo atenua muito, a paz connosco próprios também, assim como termos perfeitamente resolvidos dentro de nós qualquer sentimento menos bom como mágoa, revolta, incredulidade, angústia, entre tantos outros. Também ajuda termos a certeza de que inegavelmente fizemos tudo por aquela amizade que nos era tão importante, mas que estava na altura de seguir em frente. As lágrimas sem fim já ficaram para trás. Neste momento resta-me desejar um futuro tão feliz quanto desejo para mim. Sou pessoa de ultrapassar as mágoas e de seguir em frente sem pinga de rancor. A vida é mesmo assim. Como referi atrás, são aprendizagens que todos temos que fazer e que nos ensinam também a ser amigos melhores.

8 comentários:

  1. É sempre triste, também já me aconteceu e doeu... Mas o melhor a fazer é mesmo seguir bola para a frente! Força!

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    1. É nessa dor que reside a aprendizagem. Obrigada pelas palavras!

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  2. Sou completamente apologista do deixar ir quando não nos faz bem, mesmo que isso custe porque, inevitavelmente, custa sempre. Importa os que ficam. Aqueles a quem damos a mão mas que, quando precisamos, também nos estendem a mão. E sem paninhos quentes, se for necessário.

    Parabéns pelo texto e pelo blog.

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    1. Obrigada Turn the page. É mesmo assim, mas confesso que foi algo que fui aprendendo: a deixar ir.

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  3. Parabéns por estas palavras, dizem exactamente o que acontece a muita gente, em várias alturas da vida. recentemente perdi uma das minhas melhores amigas, aproveitou se de mim, não foi sincera e só foi capaz de um "desculpa", depois de eu já lhe ter deixado de falar e arrancado a ferros por outros amigos que a tentaram chamar à razão.
    Durante muitos anos foi uma irmã para mim, pena que tenha deitado tudo a perder. mas é como dizes, não guardo de todo rancor. Que siga a vida dela, que eu agora estou feliz.

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    1. Lamento Panda...há desculpas que de nada vale, quando não são de coração. E, no meu caso, há pedidos de desculpa que não anulam a gravidade do que se disse ou se fez :(
      Força para ti!

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  4. Nem imaginas como fazem sentido estas palavras para mim... Enfim, há alguns que já deixei ir, que já não há qualquer mágoa, seguimos caminhos diferentes, "é a vida". Mas ainda há um por resolver... às vezes tenho ideia que já fiz o que podia, outras vezes penso que talvez não... Mas também é verdade que para dançar o tango são precisas duas pessoas... Enfim, custa. Custa mais ainda não haver um motivo forte, uma razão clara e evidente... apenas um conjunto de opções, de decisões... Custa muito.

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  5. Sei bem do que falas... Aconteceu-me estes dias o mesmo. Cortei pois fazia-me mais mal do que algum bem. E há cerca de 1 ano também aconteceu com outra pessoa... Ainda hoje me dói... Mas aprendemos a viver. O que nunca conseguimos entender (no meu caso) foi o porquê da pessoa ter ficado assim, ter se tornado assim, ter reagido assim, o porquê de ter mudado, tantos porquês... :(
    Coragem!!
    Beijinhos

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