11 de julho de 2014

Porque adiamos vezes demais aquilo que queremos realmente fazer...

Andei anos da minha vida a dizer que queria fazer voluntariado. E depois vieram as desculpas. Que não tinha tempo, que durante a semana não dava, que queria dar 100% de mim e receava não conseguir. Que para o ano é que era, ou quando o P. jogava aos domingos, mas depois os domingos eram o único dia livre para as minhas limpezas e patati-patata... Queria, queria, queria, mas arranjava desculpas/receios e fui sempre contornando e adiando, como muitos de nós fazemos com os nossos sonhos, que ficam para depois das nossas responsabilidades, que nem sempre nos fazem felizes. Depois um dia, quis o destino (esse grande maroto, que adora trocar-nos as voltas e dar-nos as oportunidades que tanto queremos) que eu tivesse um horário tremendamente flexível, com algumas manhãs livres e a possibilidade de tardes também. Contactei, por e-mail, uma entidade da zona que tem vários organismos: escolas, associações sociais, lares de idosos. Enviei a candidatura e assinalei como preferência trabalhar com crianças. Depois os jovens. Tinha ainda a secreta esperança de vir também a fazer trabalho voluntário com animais, num canil ou veterinário (ainda tenho). Nunca pensei em trabalhar com idosos. Não tinha qualquer opinião sobre trabalhar com os mesmos, mas não eram a minha prioridade. Adoro crianças, tenho um jeito inato para elas e era o que preferia, ponto final.
Quis então o destino (esse grande maroto) que fosse chamada para o lar/centro de dia desse organismo. Fui para conhecer o espaço, conhecer as pessoas e conversar com a responsável pelos voluntariados. Nada de descartar uma hipótese antes de saber o que poderia vir a fazer com eles. E já não saí de lá. Vão quase dois anos de idas semanais (desde que estou mais disponível, duas a três vezes). Tenho feito coisas distintas, como técnicas de relaxamento, clube de leitura e teatro. Este último, o que me dá mais trabalho (porque idosos ou pessoas com incapacidade não decoram falas ou cenas), mas mais retorno em amor e alegria pura. Já não imagino a minha vida sem eles. Sem aqueles sorrisos felizes que me recebem, sem os seus beijos repenicados, sem as suas lágrimas que me magoam na alma, mas que me enchem o coração, pelo carinho que aceitam, sem os seus abraços fortes, como se não houvesse amanhã.
Não são só idosos. Há também pessoas mais jovens com trissomia 21, com incapacidades físicas graves, ou com outro tipo de incapacidade. Uma delas, a C., é a menina dos meus olhos, mesmo sendo mais velha do que eu. É o meu anjo sem asas, sempre bem-disposta, sempre feliz, sempre a querer saber de mim, sempre a despedir-se com um beijo sincero. Mesmo com o corpo magoado, mesmo com as dores que não a permitem andar sozinha, está sempre a sorrir. E temos o Sr. J. um doce de poeta, sempre pronto para a gargalhada e para a declamação dramática. A D.ª T., uma senhora tão maltratada pela a vida, dona de uma disposição maravilhosa, que adoptou como neto o F. o mais jovem, com trissomia 21. A D.ª A., invisual, guerreira, de temperamento forte e língua afiadamente honesta. A D.ª H., com as suas mãos sempre a tremer, mas o riso sempre pronto a espreitar. E tantos tantos outros.  Cada um com as suas características marcadas, com as suas necessidades, com a sua história.
Hoje escrevo sobre eles porque hoje estou de coração tão cheio que parece uma bomba relógio prestes a rebentar. Hoje foi a estreia da nossa peça, a peça de "fim de ano". E a felicidade em todos os olhos e em todos os sorrisos de quem entrou na peça, o reconhecimento, o agradecimento e a felicidade de todos os que assistiam, deixaram-me de lágrimas nos olhos e a certeza de que estou no sítio mais certo para mim. E o que mais me tocou foi um senhor de olhos tristes, que vejo sempre que lá vou, mas com quem nunca tinha falado e que, na sua cadeira de rodas me procurou, agarrou na minha mão e, com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, me agradeceu por levar tanta alegria, tanta vontade, tanta dedicação. Só por aquele senhor, valeu tudo a pena. Por todos eles então...
Sinto-me verdadeiramente abençoada por estar num sítio assim, onde o que dou, recebo em troca, porque este coração cheio, tão cheio prestes a rebentar, não se consegue só porque sim, mas quando se faz o que se ama. Como disse um dia, ganhei uma mão cheia de avós, de primos, de amigos para a vida. Sou feliz.
 
Eu, de varina, com direito a pregão, com o Sr. J., o poeta!

8 comentários:

  1. Fico tão orgulhosa. Coração enorme!

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  2. E certamente que os fazes felizes também! :)

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    1. Sei que sim, que os conforto, que os acarinho e que lhes dou a atenção que necessitam, num fim de vida, por vezes solitário, ainda que com tantos à sua volta.

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  3. Acho que nunca comentei aqui no cantinho, apesar de seguir há algum tempo, mas li o texto inteiro com lágrimas gordas a escorrerem pelas faces. É, com certeza, dona de um coração quente e enorme. Estas pessoas cheias de sabedoria, com tanto para dar têm sorte por terem alguém assim. :)

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    1. Obrigada. Também estes comentários me enchem o coração... <3

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  4. Fiquei com lágrimas nos olhos.
    Os idosos são pessoas com uma história de vida e ainda mais uma que começou em tempos muito diferentes dos de hoje. Tomara nós, agora ainda não-idosos, quando lá chegarmos, termos quem nos faça companhia e quem queira fazer dos nossos dias cinzentos dias coloridos, produtivos, dinâmicos e alegres!!

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    1. Uma das coisas que mais me custa são os relatos de solidão, porque embora bem acompanhados no Lar e cheios de actividades para fazer, faltam-lhes muitas vezes os filhos e os netos que os deixam lá e quase se esquecem deles. Sei que não colmatarei nunca esse vazio, mas faço o melhor para se sentirem acarinhados e acompanhados.

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Aceitam-se elogios, críticas, gargalhadas, lágrimas, sorrisos e afins