20 de agosto de 2014

Bem sei que se não tivesse três gatos não teria, constantemente, a casa cheia de pêlos. Sei que não teria que andar sempre de aspirador atrás. Não teria buracos nos cortinados, nem as cadeiras da sala todas "escafiadas", como diz o P. Sei que o sofá estaria sempre impecável e sem fios puxados e não teria que andar sempre a trocar as capas e a lavá-las e a lutar contra elas, tal é a dificuldade de as enfiar novamente. Sei que poderia ter as portas do quarto de vestir sempre abertas, sem medos que alguém lá fosse abrir as gavetas e puxar as roupas para fora (sim, uma realidade), ou então, dormir confortavelmente em cima da roupa, em calhando até me roem os sapatos. Sei que nunca teria que limpar vomitado do chão (ai os pêlos, mais uma vez os pêlos) e muito menos areia cheia de maus cheiros e agonias. Não teria nunca areia espalhada pela casa, trazida no conforto das almofadas das suas elegantes patas. E teria espaço no sofá para me deleitar, esticar, dormir. E o bidé não seria também um sítio onde o Tobias gosta de se deitar no Verão e que eu tenho que andar sempre a limpar. Sei que poderia falar ao telefone sem ter a Blue atrás de mim a chamar-me a atenção e a dar-me dentadinhas sem dor (vá-se lá entender os ciúmes do telefone). E poderia ter tapetes. Ah, os tapetes dos quais desisti porque só serviam para eles afiarem as unhas e vomitarem os pêlos. E poderia acordar sem os seus miados, sem a sua necessidade de meia hora de mimo ou sem os seus devaneios nocturnos, em que se lembram que já não querem dormir mais. E poderia ainda ir à casa de banho sem ser seguida por um deles, que aproveita os momentos de alívio, para pedir festas. E não teria tantas alergias, certamente. Mas chegava a casa para uma casa vazia. Vazia daquele amor sincero que eles têm por mim. E não teria a sua companhia em todos os momentos. Nem saberia o que é perceber que eles me percebem e que me conhecem. E que sabem quando estou bem e quando não estou. E não saberia que a forma de eles me consolarem quando estou menos bem é deitarem-se no meu colo e fazerem ron ron. E perseguirem-me pela casa toda. E ver que eles estão onde eu estou e que o espaço reduzido que me sobra no sofá é proporcional à distância que eles querem ter dos humanos deles. E não conheceria os miados especiais, adaptados a cada momento: os de mimo, os de gula, os de brincadeira, os de "acorda lá que são horas de receber festas". A forma como nos recebem, carregados de carências, quando regressamos de férias, ainda que sejam sempre visitados por familiares que tratam bem deles. Não conheceria a felicidade deles quando, muito esporadicamente, os deixo ir comigo para o quarto (as alergias fortes e a asma obrigam-me a ter, pelo menos, o quarto o mais livre de pêlos possível) e se deitam enrolados em mim, como se estivessem no céu. Não saberia o que é viver esta sensação permanente de os querer proteger, acarinhar, fazer felizes e amar. E de me sentir tão amada por eles. E sempre tão bem acompanhada. Porque aqui em casa não somos dois, somos cinco. Uma família de cinco. Porque os animais que nos acompanham são para nós família e só quando se sente assim, faz sentido tê-los. E é por isso que não me interessam os tapetes, os cortinados, o sofá, a limpeza que nunca será perfeita e a areia espalhada pela casa. Só a felicidade deles me interessa. Tomara eu que dure muitos e muitos mais anos.

16 comentários:

  1. Como me revi nas tuas palavras...Cá em casa, também somos 5!
    Bjs

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  2. :) é mesmo, mesmo isso. Cá em casa a limpeza nunca é impecável, os pelos parecem que se reproduzem por todo o lado, temos cobertas e mantas cheias de fios puxados e tenho um buraco na cortina do quarto feita por um ser que achou engraçado pendurar-se nela, mas não há nada melhor do que o amor que têm por nós :)

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    1. Ai as cobertas e as mantas e os fios puxados - ando sempre a trocá-las. Mas não me importo, porque é por um bem tão maior.

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  3. Eu percebo-te totalmente.. eu tenho um cão mas tenho basicamente todos os problemas que tu tens.. Mas vale tanto a pena pelo mimo qu enos dão sem quererem nada em troca..

    kisses***

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    1. Que saudades de ter um cão! Mas com 3 gatos num apartamento não dá.

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  4. E não teríamos as roupas cheias de pêlos nem a casa a "cheirar a gato"....mas são tãaaaaao deliciosos e irresistíveis. Fazem parte da família, já são tão nossa companhia :) e fazem-nos bem. E felizes um pouquinho mais!
    Nem mais! Que texto cheio de verdade ;)

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    1. As roupas! Quantas vezes tenho que me trocar por causa dos pêlos? se me importo? Não. Por eles tudo vale a pena :)

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  5. Ohhh gostei tanto do post. Fiquei emocionada quando o li pois revi-me completamente nele :) (Também não tenho a casa impecável, ando sempre com o aspirador atrás de mim e dos pêlo). Tenho 4 patudinhos (1 menino e 3 meninas) e não imagino a minha vida sem eles. Têm personalidades completamente distintas, o mais calmo é mesmo o macho e amo-os como se fossem meus filhos. É completamente indescritível o amor incondicional que nos têm .

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    1. Conseguiste comentar! Um dos teus patudos é igual à minha - as tuas fotos ~deles são uma verdadeira delícia.
      É como dizes, o amor que se sente por eles é mesmo indescritível- e eu sinto-me tão abençoada por os ter.

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  6. Eles sujam, estragam e dão trabalho. Mas compensam tudo isto com muito amor!

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    1. O que eles nos dão é muito superior a todo o trabalho que possam dar. Somos umas abençoadas ;-)

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  7. Será que posso dizer que vou assinar por baixo do post..... é exactamente o que sinto! São uma dádiva os nossos "bichinhos"; são uma fonte de amor incondicional sem cobrar, sem exigir nada em troca; somente dão e é "um dar" tão sincero! :)

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  8. Olá. Aqui dona de dois gatos. Um vai fazer seis anos e o outro quatro. São mesmo como descreveste. Muito pelo. Muito vomitado. Muita areia pelo chão da casa. Não há mantas que cheguem. Toda a roupa lavadinha que apanham é onde dormem. Cadeiras fofas, puffs, sofá, etc. Sempre atrás de mim para a casa de banho ou para onde vá pela casa. Depois fui mãe e eles são estranharam porque a dona tem outro gato sem pelo. Mas nunca nada apontar aos manos peludos. O tempo é menor. Já existem limites para eles é não entram no quarto onde fico com o bebé. Não podem ficar com os cobertores e mantas do meu Gui. Não podem andar e dormir em cima da roupa dele. Desistí dos poucos tapetes que ainda existiam porque o bebé vai começar andar e os tapetes tem vomitado volta é meia. Estamos juntos e felizes mas existe toda uma adaptação que é preciso fazer. Tanto dos humanos como dos felinos.
    Gostei muito do texto.
    Beijinhos

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