22 de agosto de 2014

"Tu não és mãe"

É uma frase que ouço de tempos em tempos, quando dou a minha opinião, aqui e ali, sobre crianças, educação, valores, o que for. Em vários blogs e páginas do facebook vejo até esta frase como indicadora autoritária de que, quem não tem filhos, não tem sequer direito a opinião. À parte a constatação mais do que óbvia de que não sou, fica vivida a sensação de arrogância de quem a emite.
É bem verdade que não sou mãe, por mais que queira, por mais que batalhe contra esta minha natureza que não me permitiu, até ao momento concretizar esse sonho. Mas isso não faz de mim uma pessoa fechada no seu mundo, alheia à realidade, sem opinião sobre o que se passa, vê, sente à sua volta. Ainda para mais porque, não sendo eu mãe, sou a irmã bem mais velha de duas meninas, hoje com 24 e 19 anos. E, se aos doze anos, quando nasceu a que hoje tem 24, já cuidava dela, dava-lhe banho, alimentava-a, brincava, adormecia, nas longas noites em que a minha boadrasta, enfermeira, fazia noites no hospital, em relação à mais nova, que nasceu pouco antes de eu fazer 17 anos, sou mais do que uma irmã. Menos do que uma mãe, a nossa mãe, mas mais do que uma irmã.
Quando a minha mãe, na altura com 40 anos, dois filhos e dois enteados, se soube grávida, ficou aflita. O meu padrasto aflito ficou. Eu, já com um irmão mais velho e uma mais nova, fiquei cheia de alegrias e, a partir dali, todas as minhas economias, ganhas com os meus trabalhos de adolescente, eram para comprar legumes e fruta para a minha mãe, que nunca foi grande fã nem de uma coisa, nem de outra, mas sim de torradinhas e café com leite. Ia a uma mercearia óptima e vinha carregada de agriões, tomates, laranjas, kiwis, tudo o que sabia que seria bom e que obrigava a minha mãe a comer, com um controle rígido de capataz. Acompanhei os meses de gravidez de tão perto que, quando a minha mãe foi a uma última consulta e soube que estava na hora, fui eu quem passou a noite com ela no hospital e, no dia seguinte, vi a minha irmã nascer. Ouvi o seu primeiro choro, assisti ao corte do cordão e renasci ali naquele momento em que a vida me abençoou com aquele pequeno ser que eu já amava tanto. Fui eu quem a trouxe para casa, com um muito nervoso padrasto, porque a minha mãe entrou em coma, andou ali a patinar e ficou internada bastante tempo depois do parto. Biberons, fraldas, roupas, banhos, you name it. Fiz de tudo, sempre com vontade. Acordei muitas noites com o choro e embalei-a pacientemente horas a fio. E sempre com metade do meu coração junto da minha mãe. A outra metade ali, a não permitir que a minha irmã sentisse a sua falta.
Os anos foram passando e eu fui sempre uma parte muito presente na vida da minha irmã. Nos tempos de faculdade era eu quem a acordava, dava o pequeno almoço, preparava e levava à escola e era eu quem a ia buscar. Em tempos complicados, em que a sua saúde nos pregou um susto, era eu quem a acompanhava nos exames complicados, porque a minha mãe morria um bocadinho com o seu choro, com o seu sofrimento. Eu também - o que eu não dava para ser eu e não ela a passar por tudo aquilo. Mas queria proteger a minha mãe e não podia deixar a minha irmã ir sozinha. Mesmo às vacinas era eu quem a acompanhava, amparava e secava as lágrimas inevitáveis. Fui eu quem lhe passou determinados ensinamentos, determinados aspectos da sua educação:  expliquei-lhe como se faziam os bebés e respondi a tantas das suas perguntas que deixavam a minha mãe, à distância de 40 anos, corada e completamente esquecida de como tinha feito o mesmo comigo e com o meu irmão. Fui sempre presente e sempre me senti no direito de emitir a minha opinião sobre tudo o que se relacionava com a minha irmã e de a castigar, se necessário. E, talvez por isto tudo, mas muito certamente por todo este sentimento especial que se desenvolveu sempre entre as duas, a minha irmã chamava-me muitas vezes mãena - a junção de mãe com mana. Porque se enganava, como se enganam os pais quando estão junto dos filhos e quando começava por me chamar mãe, rapidamente corrigia e criou esta nova palavra, só nossa, tão nossa. Passei a ser a sua mãena.
E por isso eu tenho opinião. Porque vivi e fiz parte da educação da minha irmã. Em todos os momentos. Acho que, mesmo não tendo tido esta experiência, qualquer adulto, conhecedor dos seus valores, da sua personalidade, tem opinião sobre educação, sobre valores, sobre bases para a vivência em sociedade. Eu sinto que tenho e vou continuar a partilhar o que acho, o que sinto, nunca como verdade absoluta, mas como resultado da minha experiência e do que me define. Porque não sou mãe, é certo, mas sou mãena.

17 comentários:

  1. Tu foste a irmã/mãe que eu não consegui ser, porque meu menino veio para nós com 5 anos, e não passei a fase bebé, agora apanho outras fases igualmente boas e vivo bem com isso.
    Quem te diz isso, magoa e muito, as pessoas são crueis, muitas das vezes sem darem conta disso.
    Ainda vais ter a tua criança, não desanimes.

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    1. Mary, aproveita bem todas as fases - com cinco anos ainda tens tanto tempo para fazer parte dos momentos importantes da vida dele :)

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  2. Sabes Bêzinha, antes de ser mãe essa era a frase que me tirava do sério! Juro-te que me arreliei umas tantas vezes e sempre disse: não sou mãe mas tenho a minha opinião. Não sou politica e tenho a minha opinião. Continuo achar exactamente o mesmo: é a frase mais parva de todos os tempos. E mesmo agora fujo de tudo que seja "maternidades fundamentalistas"...
    Para vocês ♥♥♥

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    1. É mesmo isso. Não é por não sermos algo, que não temos opinião. A as maternidades fundamentalistas, como tão bem lhes chama, tiram a capacidade de discernimento às mulheres. É tremendo!

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  3. Infelizmente as pessoas falam sem saber. Eu também "criei" a minha irmã mais nova, não da mesma forma que tu porque era bem mais nova (não temos uma diferença de idades tão grande) mas até hoje sei que sou muito mais que uma irmã (pelas suas próprias palavras e principalmente pelo que sinto). E é por isso que podemos sim ter as nossas opiniões e o direito de nos "indignarmos" com o que fazem às crianças e com o que não lhes impõe e tudo mais. É bom saber que há mais alguém que percebe o que sinto também. :) Obrigada pela partilha. Beijinhos

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  4. não és mãe só porque não pariste porque de resto fizeste tudinho ;)

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    1. Sem susbstituir a minha mãe, que felizmento, depois do susto inicial foi e é uma mãe super presente :)

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  5. Adorei :) e mãena é termurento que derrete o coração :)

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  6. É já para não ouvir coisas dessas que evito entrar em conversas com mães que só vêem os filhos à frente e que se acham numa posição glorificada qualquer, como se elas passassem a pertencer a um grupo privilegiado assim que têm um filho. Enfim, eu não sou mãe mas podia muito bem sê-lo que as minhas convicções sobre valores e educação estão confirmadas para mim (pelo menos no essencial), seria estranho se não quisesse transmiti-las à minha prole.

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    1. A verdade é essa - se um dia formos mães, muito do que seremos já cá está em nós. Certamente algumas coisas mudam, mas o essencial, o que somos, já cá está.

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  7. Não ser mãe não nos retira o direito de ter uma opinião. É certo que a opinião poderá mudar quando formos mães, mas temos sempre direito a uma opinião.


    És um ser humano lindo.

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  8. Talvez por não ser mãe também raramente me meto em conversas entre mães. Muitas das minhas ideologias e pensamentos estão assegurados sem muito da educação, mas por experiência já vi o quanto muito pode mudar ao ter um filho por pessoas próximas. E até lá resta a experiência pessoal que um dia irá de vir :)

    Beijinhooos :)
    http://princesasemtiara.blogs.sapo.pt/

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    1. Também tenho a perfeita noção de que algumas coisas que agora tenho como certas, podem mudar se um dia for mãe, mas a essência está cá ;-)

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  9. Foi a primeira vez que te li.
    Parabéns. Os meus sinceros parabéns! Por tudo, pelo que está escrito e pelo que não está.

    É muito feio sentir um dedo apontado para nós só porque não temos filhos.

    Um grande beijinho para ti. Já viste que não estás sozinha :)

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