29 de setembro de 2014

Óscar

Quem me vai acompanhando por aqui, sabe que sou uma pessoa muito dedicada à causa animal. E quando assim se é, a causa animal vem ter connosco, aparece em cada esquina, quando menos se espera, porque não fechamos os olhos a nada. Alguns de vocês já sabem que, no quintal do meu pai, onde vive uma colónia de gatos por nós muito bem tratada, apareceu um gatinho minúsculo, demasiado novo para estar sem a sua mãe, mas suficientemente crescido para me obrigar a uma semana de paciente insistência até conseguir apanhá-lo. Estava num claro estado de subnutrição, a barriguinha demasiado inchada e dura e a causa em muito mau estado – parte dela claramente já carne morta. Suspeito ou de abandono ou de uma triste viagem no motor de um carro, com um final, felizmente, num verde quintal cheio de gatos e de pessoas atentas. Andei, desde domingo, a tentar apanhá-lo. Consegui assegurar que comia, mas assim que me via escondia-se, fugia e o meu receio que fosse para a estrada era tão grande, que percebi que a estratégia tinha que ser pacientemente cuidadosa. Aos poucos fui-me aproximando e, na sexta-feira, consegui finalmente apanhá-lo. Primeiro ganhei a sua confiança com uma hora de mimos, festinhas, massagens na barriga, certa de estar a precisar de cuidados que as mães gatas dão nestas idades. Depois, a traição: enfiei-o numa caixa de papelão (a única disponível) e levei-o ao veterinário. A cauda teve que ser cortada a meio. O estado de subnutrição foi confirmado, assim como a necessidade de acompanhar aquela barriga inchada e dura. Foi desparasitado e tiraram-lhe as pulgas, carraças e tanta porcaria que tinha agarrada. Está a antibiótico e tem um penso na cauda a ser mudado de dois em dois dias. Tem uma diarreia tremenda, mas desde o primeiro minuto faz todas as necessidades na areia. Está na minha casa, porque não podia deixá-lo num espaço aberto, cheio de gatos grandes (embora nenhum lhe tenha feito mal, mas na hora da refeição, os mais fracos ficam em desvantagem) e porque tenho que controlar os seus intestinos, o que come, o que bebe e o estado da sua barriguinha. Como tenho três gatos, a Blue, o Tobias e a Gata, está num quarto fechado, com a caixa de papelão bem forrada com duas mantinhas e um peluche que lhe dá a sensação de estar (mais ou menos) acompanhado por outro gato. Vou continuar com ele na minha casa e a cada dia renova-se a minha esperança de que recupere totalmente. O seu estado é ainda preocupante e frágil. Só o darei quando estiver bem, sem necessitar de pensos, antibióticos e desparasitantes, garantindo eu todas as despesas médicas necessárias, mesmo com esforço, são os euros mais bem gastos, quando são para praticar o bem.
O nome temporário é Óscar e está a cada dia mais forte, mais sabido, já brinca e adora mimos. Ontem passou a noite connosco no sofá e, apesar dos ciúmes do Tobias – que aos quase doze anos de idade, voltou a fazer xixi pela casa, qual machão a delinear a sua propriedade – todos os nossos gatos se portaram bem, sobretudo a Blue, a minha velhota, que sempre foi óptima a receber novos animais. Ontem fomos seis no sofá.
A partilha deste meu estado de alma, que na sexta feira estava ainda mais aceso, porque o receio de que o Óscar não sobrevivesse era grande, foi partilhada por cerca de 50 pessoas e os comentários e likes foram mais do que poderia imaginar. Em menos de nada tinha várias pessoas interessadas em ficar com um gatinho já mutilado pela vida sofrida. Já tenho uma dona para ele. Mas estou já de coração partido e todos os dias choro o momento em que vou ter que me despedir dele. Sei que estou a fazer o melhor e que o mais acertado é dá-lo, porque três gatos num apartamento não muito grande é já um limite que ultrapassa as nossas intenções (queríamos apenas ter dois).  Mas vou ficar de coração partido por não poder ficar com o Óscar para sempre. Dói-me esta sensação de estar a provocar mais uma mudança tremenda na sua vida e de ter que reiniciar tudo num outro lugar, com outras pessoas…Porque quem está ligado à causa animal sofre profundamente com estas decisões e estes momentos.

Ficam algumas das 236 fotos que lhe tirei nos últimos dias:

 No dia em que chegou cá a casa e finalmente adormeceu enquanto ronronava
 
 Está fã de festinhas na barriga - faço-as para estimular os seus intestinos, o que é fundamental.
 Ontem, no sofá, rodeado por nós e pelos gatos, adormeceu assim
Já brinca e morde !

11 comentários:

  1. Obrigada por seres assim. Eu gosto de pensar que é com pequenos gestos que se muda o mundo; e este é sem dúvida um deles.
    Num caso semelhante a esse, tive que tomar conta de um pequerrucho que apareceu lá em casa também com a barriga assim e também a fazer diarreia. Descobriu-se que era "só" uma inflamação intestinal por causa dos dias que esteve sem comer e não era nada de mais grave. Consegui arranjar-lhe dona, mas também me partiu o coração ao vê-lo ir-se embora.

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    1. Fico tão mais aliciada com a hipótese de ser algo que não seja grave. A barriguinha continua inchada, mas está melhor e ele é um comilão. Agora sim, ando em processo de mentalização de que tenho que o dar, mas está a ser muito difícil para mim...

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  2. Sabes que fico sempre de lagrimita ao canto do olho com estas histórias :) Quando a minha Dunga nos caiu literalmente à porta de casa era mais ou menos assim, super pequenina, cega de um olho, com fome e tantas, mas tantas pulgas.É uma gata cheia de personalidade, o meu amor maior (as minhas caninas também claro). Por mim tinha mais, mas não pode ser. Bem haja a ti e aos teus por terem este amor incondicional pelos bichos :)

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    1. Obrigada Sílvia. Também sou uma sentimental com estas histórias, ainda para mais quando são directamente comingo. Agora estou a preparar-me para a etapa seguinte, mas não é fácil

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  3. És muito generosa! Linda história de amor, um bjinho grande

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  4. Ainda bem que encontrou alguem que cuida dele e agora com novos donos depressa se fará um gato lindo grande e gordo..

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  5. Tão linda a história :-)! Também eu já fiquei com uma lágrima no canto do olho. Imagino a tua dor de teres de te separar dele mas tenho a certeza que quem o vai acolher, o vai tratar muito bem (passas a ser a "madrinha dele":-)! Bjs Sofia

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  6. Ainda bem que existe pessoas assim como tu, tão generosa :) espero que o gatinho tenha muita sorte daqui para a frente.

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