3 de maio de 2016

Mel

Quem me segue há algum tempo conhece o meu amor profundo pelos animais, mais forte no que respeita aos gatos, aqui me confesso. Adoro a sua personalidade, independência e sinceridade. Saberão também que lá em casa vivem três, já seniores, que eu amo profundamente, cada um resgatado de uma história potencialmente infeliz, cada um com o seu temperamento especial.
Em dezembro de 2015, por obra do acaso, deparei-me, na rua do meu pai com um gatinho com sete meses (conheço-lhes as idades e as ligações, embora sendo de rua, porque tratamos deles em família) que estava, literalmente a morrer. O corpo a definhar, os ossinhos a ver-se, as patas sem forças. No espaço de desorientação que tive de procurar uma caixa onde poder transportá-lo, encontrei-o já só a respirar e, perante os olhos de pena dos que comigo estavam, que achavam que já nada havia a fazer, agarrei nele, todo sujo e suspiros e pedi ao P. que me levasse para o veterinário mais próximo. No caminho as lágrimas tomaram conta de mim, certa que me iria morrer ali no colo, sentido-me culpada por nunca ter feito nada por aquele que já há tempos era o mais pequeno e fraco da ninhada. Quis o destino, esse malandro, que o gatinho a quem demos o nome de Malaquias, mas que é mais conhecido por Mel, gastasse logo ali todas as suas vidas, mas não desistisse de lutar. Lutou ele e lutei eu. Muitos dias, muito soro, muito tratamento e muitos euros depois, o Mel pode ir para minha casa, onde sob a minha presença atenta e um aquecedor quase sempre ligado (não conseguia manter a temperatura do seu frágil corpo) foi resistindo dia após dia. As consultas no veterinário foram semanais, durante meses, para garantir que estava a crescer e que nenhum orgão tinha sido verdadeiramente afectado por toda a sua história (bem, os intestinos não são grande coisa, já que tem os gases mais potencialmente perigosos de que há história, capazes de me murchar as flores e o sorriso). Um gatinho tão feio, tão raquítico, tão sem cor e sem pelo numa grande parte do corpo (por causa da acidez das fezes), que me enchia de amor e compaixão. Tenho esta coisa de ser difícil nas paixões humanas, mas tremendamente fácil nas felinas.
Como combinado com o P. e porque, repito, temos já três gatos, a ideia sempre foi a de o salvar, dar-lhe tempo para se recuperar, nas forças e no peso e arranjar-lhe uma família que, como nós, o amasse, cuidasse e que fosse para a vida. Já o tínhamos feito antes com o Óscar, seria para repetir. Essa família chegou, cinco meses depois, cheia de vontade de ter este menino especial, ronronadeiro, conversador e muito brincalhão. As suas 700 gr iniciais deram lugar a uns 2,7 kg, o que já o tornava suficientemente forte para partir para a sua nova vida. E assim foi, há umas semanas atrás, não sem um rio de lágrimas que me invadiu a cara e a alma, certa de ser o melhor para ele, mas de me estarem a arrancar um bocado do meu peito. O Mel seguiu para uma nova casa, com um novo nome, levámo-lo com as suas coisas: mantas, um brinquedo, caixa da areia e deixámo-lo aos cuidados amorosos de uma pequenina de 5 anos e a sua família, encantadas com o Mel. Três dias depois tive que o ir buscar para o levar à veterinária que o conhece (mesmo com 100km de viagens pelo meio, no final de um dia de trabalho, para o poder ir buscar): o Mel não comia, não bebia, não fazia necessidades e vomitava diariamente. Entrei em pânico. A vet dizia-me ao telefone que o stress podia desencadear outras fragilidades que ele já tivesse e por isso não pensei duas vezes, arranquei de Setúbal para S. Domingos de Rana e trouxe-o, com a promessa de o levar assim que estivesse bem. Não regressou. Na vet um exame completo a tudo, nova medicação para os vómitos, a constatação de nova perda de peso e, assim que chegou a minha casa comeu, comeu mesmo a sério, bebeu água, foi às pedras e deitou-se no meu colo. E é no meu colo que vive desde então. Todos perceberam (eu já o sabia) que o Mel é meu e eu sou dele, como uma mãe humana, que ele escolheu adoptar. E por isso, temos agora, 4 gatos. Uma loucura, muitos pelos e areia, mas nestas coisas de amores felinos e de histórias que têm o destino a operar, não há nada a fazer. 
Deixo aqui algumas fotos do gato mais fofo (vai sempre ser mais pequenino que a maioria dos gatos) que adora deitar-se no meu colo, lamber-me a cara, fazer ronron, apanhar sol espreitar as janelas e brincar com o Tobias:

No dia em que regressou©





13 comentários:

  1. O amor deles é qualquer coisa de fenomenal :)

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  2. E ainda há quem diga que os gatos são desligados, que não gostam de nós ou sentem o amor.
    O teu Mel é a prova de que o amor se sente, independentemente da forma que temos, do tamanho ou da cor da(o) pele(o). Que sorte a dele ter encontrado uma família como a vossa e uma mamã como tu e que sorte a tua também poderes receber esse carinho tão genuíno dessa pequena criatura adorável. Eu gosto tanto de te ler :)
    beijinhos

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    1. Tenho dito tanto isto, com este exemplo de demonstração de sentimentos e de amor que o Mel tem mostrado. Os gatos são apenas sinceros e nem todas as pessoas estão preparadas para lidar com isso, mas quando amam, é incondicionalmente.
      Obrigada pelo carinho!

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  3. Isso é tão bonito, querida! Não foste só tu que o escolheste, ele escolheu-te a ti! :)
    [ Está a sorrir nas primeiras três fotos!]

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    1. Ele escolheu-me, sem dúvida. e Sim, eu estou sempre a dizer que este gato sorri de felicidade. Depois de uma vida dura e fria na rua, parece agradecer todos os dias o conforto e o amor de um lar :D

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  4. Sabes que sempre torci por ele, e fico tão contente com este final :) Infelimente o meu Tobias morreu (o bebé que alimentava a biberão)... Não conseguimos salvá-lo :(

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    1. Oh, lamento minha querida. Tenho tantas historias assim. Temos que nos agarrar às que têm finais felizes, não os podemos salvar a todos, infelizmente, mas os que salvámos dão-nos tanto.

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  5. Foram feitas uma para a outra, ela escolheu-te e tu a recebeste de braços abertos :) Ainda bem que está tudo bem com a gatinha e que a história teve o seu final feliz. Os gatos, ao contrário do que dizem, são muito dependentes, sentem muito as mudanças. Tenho dois e são a melhor companhia do mundo.

    Beijinhos

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    1. São mais dependentes do que a maioria das pessoas imaginam sim e têm tanto amor para dar :)

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  6. És um ser muito especial, adorei ler esta história de amor real, espero ler te cada vez mais feliz e realizada! Parabéns pela vida que escolheste seguir

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