22 de março de 2017

Sim, também tenho uma espécie de opinião sobre amamentação

Mas tu não és mãe, dirão alguns. Mas sou mulher, sou tia, sou irmã bem mais velha e apetece-me partilhar o que me vai na alma. 
A minha mãe não me amamentou, numa altura em que, felizmente, não lhe caiu ninguém em cima, culpando-a impiedosamente do facto de eu, simplesmente, ter recusado o seu leite, quer era fraco e insuficiente. Outros tempos. Felizmente não cresci burra que nem uma porta ou carregada de problemas de saúde e o laço estabelecido com a minha mãe está mais para corda de ferro do que para  fita de cetim. A minha mãe não me deixou dormir no quarto dela até eu querer, muito menos na sua cama  - não me lembro sequer se alguma vez dormimos juntas, embora seja possível que sim. A minha mãe deixou-me inúmeras vezes na casa dos meus avós, desde bem pequenina, sobretudo nas férias, quando ela ainda não as podia tirar. E que férias felizes e vínculos profundos estabeleci eu com a minha avó, a quem ainda hoje lhe sinto a falta. E sabem que mais, a minha mãe é a melhor, a mais querida, a pessoa que melhor me conhece e a minha melhor amiga. Aquela a quem confio tudo, mas mesmo tudo, aquela que sei que me dirá sempre a verdade, por mais crua que possa ser. A minha mãe ensinou-me valores profundos e honestos, deu-me das mais valiosas lições de vida e de amor, quando contra tudo e contra todos se divorciou do meu pai e fez de tudo para que nunca nos faltasse nada - e se me faltaram algumas coisas (houve alturas em que a comida não abundava e a roupa muito menos), não me faltou nunca amor, carinho, tempo e compreensão. Falamos a toda a hora, sobre tudo e sobre nada e estamos agora naquela fase em que já invertemos um pouco os papéis, em que me sinto irremediavelmente atenta a todas as questões de saúde. A lei da vida, dirão uns, uma valente treta digo eu, que sou dada a preocupações fáceis no que diz respeito aos que amo. 
E porque resolvi eu hoje escrever sobre isto? Porque numa altura em que se fala muito da amamentação, do co-sleeping e de mais umas quantas questões que me devem estar a passar ao lado, eu diria que o mais importante é que cada família tome as suas decisões em consciência com as suas necessidades, mas não esquecendo nunca de pensar no futuro, no crescimento, no desenvolvimento dos seus petizes e das suas relações. Mas cada um sabe de si e nestas questões eu acho que se deve, acima de tudo, respeitar as opções dos outros. O problema é que o que vejo são algumas mães adeptas do co-slpepping "até eles quererem" e que amamentam os filhos até aos 37 meses e meio (e que sim, muitas delas falam por meses até idades mais crescidas) a criticar profundamente as mães que não o fazem. E mesmo não sendo mãe e não fazendo eu a mínima ideia do que faria no meu caso (uma coisa é o "suponhamos" outra é a realidade, não vou estar aqui a dizer que eu faria assim, quando sei que a realidade nos troca as voltas) fico de cabelos em pé de cada vez que vejo essa crítica, muitas vezes nada velada. Ainda há dias, num grupo de vegetarianos no facebook uma mamã dizia que por razões alheias à sua vontade, teria que deixar de dar mama ao seu filhote de 11 meses e pedia sugestões sobre o que dar, como dar, enfim, aquelas coisas que eu acho que não devem ser perguntadas em grupos muitas vezes cheios de pessoas extremistas e julgadoras de todos os que são diferentes de si. Mas adiante, quem nunca? Ora bem, podem imaginar a quantidade de mães que em vez de ajudarem, julgaram, criticaram, falaram dos seus exemplos de mães amamentadoras até idades bem acima dos onze meses. Em vez de orientarem uma mãe que se notou nas suas palavras que se sentia sem chão por não ter alternativa, fizeram com que se sentisse bem pior e arranjaram mil e uma razões para ela não deixar de o fazer, mesmo não sabendo a causa (que só à própria diz respeito). Isso mexe-me com os nervos, dá-me ânsias assistir à facilidade com que se abala uma pessoa, sobretudo não se sabendo nada da sua vida. 
Mais do que filhos dependentes, como muitos referem, por vezes preocupa-me que esteja aí uma geração de mães extremamente dependentes dos seus filhos e que podem vir a sofrer quando eles crescerem e abrirem as suas asas para voar, algo tão natural quanto inevitável e que é desejável que assim seja. Para além disso, acho que falta muita tolerância face à diferença. Quem somos nós para nos achar o melhor exemplo de todos? E para julgarmos a vida dos outros à luz da nossa realidade? Amamentem enquanto puderem e onde quiserem e desfrutem dessa fase, mas não se sintam culpadas se por alguma razão não o puderem fazer tanto quanto desejariam. Decidam o que é melhor para a vossa família sobre as dormidas, tudo ao molho na mesma cama, ou nos seus quartinhos a partir dos seis meses. Acima de tudo, respeitem as vontades e escolhas dos outros - respeitar não é concordar, mas sim aceitar que cada um é decisor das suas vidas com base em muito mais do que aquilo que possamos pensar que sabemos. E sejam felizes com as vossas decisões - essa felicidade é sentida por aqueles que vos rodeiam ;-)

8 comentários:

  1. Bem escrito. Muitos parabéns ;)

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    1. Obrigada, é só uma partilha do que vai cá dentro :)

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  2. Não tenho pachorra para essas merdas. A sério. Se há coisa que agradeço a todos os santinhos, e já o disse algumas vezes, é por me ter estreado na maternidade numa era em que ainda não se ouvia falar em redes sociais. Não aguento os discursos de mulheres que só porque pariram um filho se acham donas da razão no que toca a sabedoria materno-infantil. Caramba, não aguento mesmo.

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    1. Acho que a internet, a proliferação de grupos, de blogs e afins só dissemina ainda mais esse hábito terrível que é julgar os outros à luz das suas escolhas. Se eu fosse mãe, acho que me tornava uma pessoa muito menos paciente :D

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    2. É que é o julgar e não só. Julgam e falam lá do alto como se fossem a única mulher no mundo que pariu e a quem todas as outras devem vassalagem. E o pior, são tantas.
      Acredita Bárbara, eu até sou uma pessoa paciente, pode não parecer mas sou, só não consigo é tolerar gente com a mania que sabe mais que os outros.

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  3. Adorei essa tua visão que claro reflecte a experiência vivida! A maternidade não advêm nem do leite, nem das mamas, nem do dormir junto ou separado, tal advém dos vínculos que se geram e fortalecem ao longo da vida (e sim desde o nascimento). Os fundamentalismos em todos os prismas não são bons! Por isso, há que adaptar e escolher a nossa própria orientação, de vida, somos livres ora bolas! eheheheh bjs grandes, Ana Luisa (Minie)

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    1. Minha querida amiga, gosto tanto de te ver por aqui. Sem dúvida que os fundamentalismos e extremismos nunca são bons, seja em que tema for. Beijo grande!

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  4. Eu não sou mãe mas as minhas observações dizem-me que há muita gente que encara a maternidade e a educação dos filhos como uma espécie de competição. Eu não julgo quem procura informar-se e acredito até que muitos traumas de infância se podem evitar com um pouco de conhecimentos de pedagogia infantil e as técnicas certas, mas incomoda-me a forma como muita gente se dedica a julgar os outros non-stop. Ultimamente parece que é a amamentação que está "na moda". Eu posso apenas imaginar o desafio que é ter um bebé, e acho triste que não deixem as pessoas relaxar e desfrutar dessa fase, que supostamente é uma das mais felizes da vida.

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