O Tobias é o gatarrão cá de casa. Meigo que só ele, espera-nos à porta do quarto, quando acordamos, ou à porta da rua quando estamos a chegar a casa e em qualquer destes momentos exige o seu momento de festas e carinhos, que celebra com um ronrom digno de fazer tremer a fachada do prédio. Segue-nos para todo o lado. Deita-se no bidé enquanto tomo banho (durante anos tentei evitar, mas acabei por desistir - eles são donos de uma persistência que me ultrapassa) e senta-se à mesa connosco, atento ao que comemos e com a certeza de que vai ganhar algo. E lá se mantém mesmo quando comemos algo que não lhe interessa, porque o Tobias é um gato de pessoas. Gosta da casa cheia de gente. Gosta de experimentar os colos todos. Gosta de conquistar afectos. Gosta de nos sentir e de nos acompanhar. Faz uma coisa muito particular - o miaucejo - meio miado, meio bocejo que lhe é tão frequente e característico que nos deixa sempre de sorriso nos lábios. Puxa a minha mão com a sua própria pata, para que lhe faça festas, das quais nunca se cansa. É aquele gato de quem todos, mesmo os não apreciadores de gatos, gostam. Não é possível ficar-lhe indiferente, porque quanto maior é a indiferença de quem vem cá a casa, maior é a insistência dele em conquistar o colo e logo logo o coração. Quando o P. chega mais tarde do que o habitual fica a miar para a porta da rua, desejoso que o dono do seu coração chegue e aí começa a grande perseguição por toda a casa, sempre carente de mimo, sempre bem-disposto.
A Blue é a minha menina. A minha eterna companheira. Começamos por ser só as duas, antes de o P. e depois os outros dois gatos, virem viver connosco. Não passa grande cartão a pessoas de fora, mas não se afasta, nem ataca ou algo que se pareça. Apenas tem um amor imenso por mim e pouco lhe sobra para dar aos outros. Sabe quando eu não estou bem e nesses momentos agarra-se a mim que nem lapa, com um ronrom e olhos de carneiro mal morto, capaz de me encher o coração de amor. Conversa comigo a toda a hora. Sabe como miar para eu deixar tudo o que estou a fazer e alapar-me a ela cheia de mimos para dar. Gosta de brincar às escondidas comigo, mas nunca ataca. Apenas salta pela casa, feliz e liberta. Adora quando vou ler para o quarto e a levo a ela e só a ela, porque sente que lhe pertenço e que aqueles momentos são só nossos - e na verdade as marradinhas que me dá são tão fortes e frequentes, que às vezes mal consigo aguentar o livro nas mãos. E depois deita-se o mais colada a mim possível. Entende-me e eu entendo-a. Somos cúmplices.
A Gata é a assustadiça. Já está connosco há 7 anos, mas antes era uma menina abandonada numa jaula de veterinário que sofreu sabe-se lá quantos golpes de azar na sua então pequena vida, que ainda hoje, depois de uma vida imensa connosco, tem medo da própria sombra. Adora-nos. É carente e adora festinhas na barriga. Até há muito pouco tempo atrás não se deixava ver por pessoas de fora, era a gata fantasma. Aos poucos foi ganhando alguma confiança, aproxima-se e quando alguém lhe dá uma festinha, já não larga as pernas da pessoa. Mas continua a preferir o sossego de uma assoalhada da casa onde está os dias quase inteiros a dormir na paz dos anjos e só ao final do dia gosta de se vir deitar no meio de nós no sofá, a pedir festas, ora a um ora a outro, sempre de olhar apaixonado e feliz.
Os meus gatos nunca me deram qualquer prova da infidelidade que normalmente se lhes atribui. Nunca me atacaram. Nunca me trocaram, nunca me desiludiram. Por vezes portam-se menos bem - afiam as unhas no sofá ou nas cadeiras, fazem perseguições pela casa a altas horas da noite, mas isso é o pior que posso dizer deles, o que para mim, não é nada, comparado com o que eles me dão. Os meus gatos não são independentes. Quando vamos para fora e não os levamos, é certo que se aguentam bem os três (a minha mãe normalmente vem vê-los dia sim, dia não) mas quando chegamos estão tão carentes e melosos, que antes de pousarmos as coisas, já estamos agarrados a eles. Os meus gatos não nos atacam, nem mesmo a pessoas estranhas (um dia conto a história de quando o Tobias tentou conquistar os senhores do gás. Ou de como o senhor que nos vinha trazer comida indiana a casa ficou tão encantado com as recepções dele, que arranjou um gato também.) Os meus gatos entendem-nos. Sabem que não é não, mas, como persistentes que são e donos de uma personalidade afincadamente forte, gostam de insistir e de nos provocar, não por malícia, mas por brincadeira e teimosia.
Eu não sou uma pessoa de gatos OU de cães. Sou uma pessoa de animais e amo-os na mesma proporção e da mesma maneira. Tenho gatos porque os amo e porque vivo num apartamento não muito grande e a nossa vida ocupada não nos permite dar a um cão a companhia e o acompanhamento (idas à rua) que o mesmo exige. Mas toda a vida tive cães - no ano passado perdi o meu menino, o Rafa, que depois de eu arranjar casa, ficou a viver com o meu pai, que tinha todas as condições para ele ser feliz e tanto amor para lhe dar quanto eu. Mas estava com ele todas as semanas e foi o melhor dos cães e ainda hoje sofro quando chego a casa do meu pai e ele não está lá para me receber e para nos cheirar o rabo, como gostava de fazer. Tive outros cães ao longo da minha vida, cuja lembrança ainda hoje me amargura o coração, de tanta saudade que sinto.
Não quero com este texto afirmar que os gatos são melhores do que os cães. São diferentes. Como os homens são diferentes das mulheres, ou as crianças dos adultos. Não os comparem. Fico triste sempre que leio alguém que escreve que não gosta de gatos, mas gosta de cães. Têm que lhes dar uma oportunidade - se eu tivesse desistido à primeira dentada de um cão ou arranhadela de um gato teria perdido uma vida inteira de carinho e de amizade. Entendam-nos como eles são, com as suas características e com a sua personalidade - todos diferentes uns dos outros. Não somos afinal nós humanos, também diferentes uns dos outros?